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segunda-feira, 4 de junho de 2012

Fidelidade ao Axé

Fidelidade ao Asè!

 Quero aproveitar esse espaço, para falar um pouco sobre a ética, valores e  fidelidade dentro dos terreiros de Candomblé. Hoje, a cada dia, vemos de forma mais acentuada o êxodo de filhos de um Asè para outro, mas porque isso?
Num passado não tão distante, à exceção da necessidade imediata da iniciação, muitas vezes por motivos de saúde ou determinação do próprio Orisa, aquele que desejava adentrar para um Asè, ficava anos como Abiyan (noviço, ainda não iniciado nos mistérios do Candomblé). Ao longo desse período, esse abiyan, conhecia mais o seu sacerdote, os dogmas, qualidades e falhas da casa (sim, falhas, pois perfeitos são os Deuses). Ainda que não iniciada, essa pessoa tinha um conhecimento bastante apurado sobre a vida sócio-religiosa dentro do seu Egbe Òrìsà (comunidade do Orisa).
Nessa jornada, o abiyan de forma natural aprendia as danças, os cânticos, as palavras em língua yoruba mais usuais, resumidamente, aprendia ser um Omo Orisa (filho do Orixá). Quando ele fosse iniciado, ele já conhecia bem a dinâmica do seu egbe, a personalidade, qualidades e defeitos do seu sacerdote. Essa pessoa, tomava suas obrigações de 1, 3 e 7 com a mesma pessoa que lhe iniciou, permanecendo muitas vezes no seu egbe, mesmo pós morte do seu sacerdote.
Na nossa religião, a crença dos Orisas, quando uma pessoa é iniciada, ela passa por inúmeros ritos, dentre eles, o juramento. Não um juramento como o dos católicos, mas algo que o liga ainda mais a sua casa, ao seu sacerdote e, principalmente ao seu Orisa. Hoje, por vezes, me pego pensando na credulidade dos filhos de santo acerca desses nossos rituais. Sendo que, vemos muitos serem iniciados em uma casa, tomarem obrigação de 3 anos em outra e a de 7 em outra, mas porque?
Obviamente, como já disse acima, ninguém é perfeito, perfeito são os Orisas e, até mesmo eles erraram em vida, talvez seja essa uma das razões para que eles sejam tão próximos de nós. O que digo com isso, é que, como num espaço tão curto de tempo, uma pessoa não consegue adaptar-se a nenhuma casa? A nenhum sacerdote? São as casas e os sacerdotes que estão errados? Ou as pessoas que são inadaptáveis?
Como sacerdote que sou, observo muitos saírem de uma casa, na busca de respaldo em outra. Há algumas coisas que noto bastante.
è Muitos iniciam-se em uma casa e até se dão bem lá, no entanto, querem pertencer ao “Ase da Moda”. Aqui em SP mesmo, houve uma época que todo mundo era do Gantois, sem jamais terem ido à Bahia, depois todos são do Ase Osumare. Nessa busca de seguir a tendência, alguns Omo Orisa, trocam de Ase/Casa, como trocassem de estilo. Hoje tal Ase que eu pertencia não está mais na moda, agora vou para o outro que está mais “badalado”, o problema é que eles acham que estão entrando para aquela família, mas futuramente, por vezes, acabam descobrindo que aquela casa que eles entrarem nunca foram da “casa da moda”.
è Há ainda, uma desenfreada busca dos novos pelo sacerdócio, todos querem ser Pais e Mães. Se por ventura, o sacerdote disser que aquela determinada pessoa não tem caminho para sacerdócio, logo ela irá procurar alguém que lhe diga o contrário. Mas afinal, será que todos nasceram para serem pais ou mães? Posso afirmar que não!
Na Bahia, há ainda, casas com dezenas de egbon-mis antigas, que fizeram santo na casa e lá estão até hoje. Mas no sudeste, observo que os egbon-mi já passaram por diversas casas e diversos ase. Sem construírem dessa forma, uma identificação com nenhuma. Nesse aspecto, o que acontece com o juramento? Penso que muitos não acreditam na força que lhes toma, outros, a maioria na verdade mentem que são tomados por alguma força e, dessa forma, o juramento em verdade não tem valor nenhum....
Hoje, ninguém quer ser Abiyan, ninguém quer ser Iyawo. Quantas pessoas eu fui na saída há 10/15 anos no máximo e hoje escuto os mesmos dizerem que tem trina anos de santo. Quantas pessoas simplesmente não aparecem iniciadas e já antigas? Quando indagadas sobre sua raiz.......Todos já se foram, todos os parentes já morreram, sendo ele o filho derradeiro....
Dificilmente hoje, vemos alguém que sabe limpar uma galinha, ou preparar o ase da mesma, mas falam com tanta propriedade de Iyami e Abiku que até dá medo, afinal todos aprendem Candomblé pela internet. Eu, particularmente, não sou contra a internet, muito pelo contrário, no entanto, essa rede deve ser usada com parcimônia e jamais, como ferramenta de aprendizagem, para isso estão lá, fincadas na terra, a casas de candomblé.
Antigamente, somente ao olhar sabíamos quem era uma abiyan, quem era um iyawo. Hoje? Hoje, vejo iyawos com enormes bolas de plástico no pescoço, dançando no salão mais que o próprio Orisa. Mas afinal, o que está acontecendo?
Todos nós, candomblecistas devemos parar e refletir sobre o que está acontecendo com a nossa religião. Hoje não mais o respeito, não há mais a fidelidade. Não generalizo, pois há poucos, mas ainda há. Mas a grande maioria não estão na religião pelo Orisa. Muitos, desejam o Status no candomblé, pois não conseguem fora dele, então “pintam” e, muitas vezes são rconhecidos....
Mas onde está o Orisa nesse momento? Digo, olhando atentamente a tudo isso. Muitos me perguntam mais o Orisa não fala nada? Essa é a grande preocupação, o Orisa não é mudo. Se ele se calou, tenham certeza, contente ele não está.
Babalorisa José Carlos de Ibualamo

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