Fidelidade ao Asè!
Quero
aproveitar esse espaço, para falar um pouco sobre a ética, valores e
fidelidade dentro dos terreiros de Candomblé. Hoje, a cada dia, vemos
de forma mais acentuada o êxodo de filhos de um Asè para outro, mas
porque isso?
Num passado não tão distante, à exceção da necessidade imediata da
iniciação, muitas vezes por motivos de saúde ou determinação do próprio
Orisa, aquele que desejava adentrar para um Asè, ficava anos como
Abiyan (noviço, ainda não iniciado nos mistérios do Candomblé). Ao
longo desse período, esse abiyan, conhecia mais o seu sacerdote, os
dogmas, qualidades e falhas da casa (sim, falhas, pois perfeitos são os
Deuses). Ainda que não iniciada, essa pessoa tinha um conhecimento
bastante apurado sobre a vida sócio-religiosa dentro do seu Egbe Òrìsà
(comunidade do Orisa).
Nessa jornada, o abiyan de forma natural aprendia as danças, os
cânticos, as palavras em língua yoruba mais usuais, resumidamente,
aprendia ser um Omo Orisa (filho do Orixá). Quando ele fosse iniciado,
ele já conhecia bem a dinâmica do seu egbe, a personalidade, qualidades
e defeitos do seu sacerdote. Essa pessoa, tomava suas obrigações de 1,
3 e 7 com a mesma pessoa que lhe iniciou, permanecendo muitas vezes no
seu egbe, mesmo pós morte do seu sacerdote.
Na nossa religião, a crença dos Orisas, quando uma pessoa é iniciada,
ela passa por inúmeros ritos, dentre eles, o juramento. Não um juramento
como o dos católicos, mas algo que o liga ainda mais a sua casa, ao
seu sacerdote e, principalmente ao seu Orisa. Hoje, por vezes, me pego
pensando na credulidade dos filhos de santo acerca desses nossos
rituais. Sendo que, vemos muitos serem iniciados em uma casa, tomarem
obrigação de 3 anos em outra e a de 7 em outra, mas porque?
Obviamente, como já disse acima, ninguém é perfeito, perfeito são os
Orisas e, até mesmo eles erraram em vida, talvez seja essa uma das
razões para que eles sejam tão próximos de nós. O que digo com isso, é
que, como num espaço tão curto de tempo, uma pessoa não consegue
adaptar-se a nenhuma casa? A nenhum sacerdote? São as casas e os
sacerdotes que estão errados? Ou as pessoas que são inadaptáveis?
Como sacerdote que sou, observo muitos saírem de uma casa, na busca de respaldo em outra. Há algumas coisas que noto bastante.
è Muitos
iniciam-se em uma casa e até se dão bem lá, no entanto, querem
pertencer ao “Ase da Moda”. Aqui em SP mesmo, houve uma época que todo
mundo era do Gantois, sem jamais terem ido à Bahia, depois todos são do
Ase Osumare. Nessa busca de seguir a tendência, alguns Omo Orisa,
trocam de Ase/Casa, como trocassem de estilo. Hoje tal Ase que eu
pertencia não está mais na moda, agora vou para o outro que está mais
“badalado”, o problema é que eles acham que estão entrando para aquela
família, mas futuramente, por vezes, acabam descobrindo que aquela casa
que eles entrarem nunca foram da “casa da moda”.
è Há
ainda, uma desenfreada busca dos novos pelo sacerdócio, todos querem
ser Pais e Mães. Se por ventura, o sacerdote disser que aquela
determinada pessoa não tem caminho para sacerdócio, logo ela irá
procurar alguém que lhe diga o contrário. Mas afinal, será que todos
nasceram para serem pais ou mães? Posso afirmar que não!
Na Bahia, há ainda, casas com dezenas de egbon-mis antigas, que fizeram
santo na casa e lá estão até hoje. Mas no sudeste, observo que os
egbon-mi já passaram por diversas casas e diversos ase. Sem construírem
dessa forma, uma identificação com nenhuma. Nesse aspecto, o que
acontece com o juramento? Penso que muitos não acreditam na força que
lhes toma, outros, a maioria na verdade mentem que são tomados por
alguma força e, dessa forma, o juramento em verdade não tem valor
nenhum....
Hoje, ninguém quer ser Abiyan, ninguém quer ser Iyawo. Quantas pessoas
eu fui na saída há 10/15 anos no máximo e hoje escuto os mesmos dizerem
que tem trina anos de santo. Quantas pessoas simplesmente não aparecem
iniciadas e já antigas? Quando indagadas sobre sua raiz.......Todos
já se foram, todos os parentes já morreram, sendo ele o filho
derradeiro....
Dificilmente hoje, vemos alguém que sabe limpar uma galinha, ou
preparar o ase da mesma, mas falam com tanta propriedade de Iyami e
Abiku que até dá medo, afinal todos aprendem Candomblé pela internet.
Eu, particularmente, não sou contra a internet, muito pelo contrário,
no entanto, essa rede deve ser usada com parcimônia e jamais, como
ferramenta de aprendizagem, para isso estão lá, fincadas na terra, a
casas de candomblé.
Antigamente, somente ao olhar sabíamos quem era uma abiyan, quem era um
iyawo. Hoje? Hoje, vejo iyawos com enormes bolas de plástico no
pescoço, dançando no salão mais que o próprio Orisa. Mas afinal, o que
está acontecendo?
Todos
nós, candomblecistas devemos parar e refletir sobre o que está
acontecendo com a nossa religião. Hoje não mais o respeito, não há mais
a fidelidade. Não generalizo, pois há poucos, mas ainda há. Mas a
grande maioria não estão na religião pelo Orisa. Muitos, desejam o
Status no candomblé, pois não conseguem fora dele, então “pintam” e,
muitas vezes são rconhecidos....
Mas
onde está o Orisa nesse momento? Digo, olhando atentamente a tudo
isso. Muitos me perguntam mais o Orisa não fala nada? Essa é a grande
preocupação, o Orisa não é mudo. Se ele se calou, tenham certeza,
contente ele não está.
Babalorisa José Carlos de Ibualamo
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