Candomblé no Pará ainda é original
Érika Morhy
Doutora em Antropologia, Marilú já chegou a lançar uma obra sobre a Umbanda no Rio de Janeiro. Em Belém, as referências eram Napoleão Figueiredo e Anaíza Vergolino. "Me surpreendi em saber que aqui não tinha só Mina e que o Candomblé, tipicamente baiano, ainda estava por ser estudado. Por isso também meu interesse", justifica Marilú.
A primeira etapa de trabalho já se encerrou. Ela descobriu a localização dos terreiros, os municípios e bairros em que se concentra o maior número deles, as principais lideranças e a história dos adeptos que realizam festas e rituais afro-brasileiros, selecionando o Candomblé como área de estudo, paralelamente ao trabalho de Taíssa Taverna, que optou pela Mina. A previsão é que a segunda fase seja concluída até setembro de 2004, definindo um perfil do sincretismo entre as duas religiões, o que preservam como tradição e o que introduzem como inovação na sua estrutura.
Segundo Marilú, a Federação Espírita de Umbanda e Cultos Afro-brasileiros, seção Pará, registra uma média de 1.600 terreiros na Grande Belém e Castanhal. "Precisamos confirmar se todos estão em funcionamento e também temos de considerar que existe a subnotificação", pondera. Desse total, cerca de 600 casas são de Mina, em menos de 100 se pratica Candomblé e as demais são umbandistas, que têm predominância na região. Ela diz que os números são pequenos, se comparados com algumas das principais capitais do país, como Recife, Salvador e Rio de Janeiro, mas ultrapassam os de São Luiz - "até porque a população de lá é menor".
A origem dos grupos que se estabeleceram na região e o modo de organização deles também determinam as especificidades de cada culto. A Mina, por exemplo, é característica do Maranhão, Pará e Amazonas e está ligada à presença dos escravos vindos da costa ocidental africana, mais propriamente aos povos de língua fon. Já o Candomblé tem na sua genealogia os povos iorubás, do país que hoje se conhece por Nigéria.
Ao contrário do que acontece no Maranhão, no Pará não há município específico onde se identifica maior número de terreiros nem de casas matrizes de iniciação, o que também ocorre em Salvador e Rio de Janeiro. "E talvez essa seja uma das grandes dificuldades dos pesquisadores da área que, aqui, vão precisar bater de porta em porta. A única referência para se obter informações mais amplas é a federação", revela Marilú. Ela acredita que a falta de uma casa de raiz e mesmo de pessoas que sejam referência na disseminação do culto na região se dá pela sua recente difusão na cidade. "É do final da década de 70, quando Astianax foi iniciado no Candomblé, na Bahia, e voltou com o culto para Belém. Isso motivou outros adeptos a irem procurar uma casa matriz em Salvador, abrindo novos terreiros aqui. Ele é a única referência, e morreu este ano. Nos outros estados, o grande momento de organização do culto se deu a partir do século XIX", conta Marilú.
As casas vão se abrindo principalmente em bairros de periferia e a Pedreira, apesar de já estar mais urbanizada, ainda mantém a tradição, seguida do Jurunas, Guamá, Benguí e Maguari, num movimento liderado principalmente por homens. Para a coordenadora do Instituto Nacional de Tradição e Cultura Afro-brasileira, seção Pará, Mametu Nangetu, que mora no bairro do Marco e tem um terreiro no mesmo endereço, é difícil manter uma casa de Candomblé no centro da cidade, "porque temos árvores sagradas que acabam tendo de ser podadas para não incomodar a vizinhança; porque os clientes são constrangidos com os comentários jocosos dos moradores da redondeza; porque temos de limitar nossos batuques, para não criarmos desavenças na área. Sei dos direitos dessas pessoas, mas por que as igrejas continuam com som alto, outras fazem procissões nas ruas e eu não posso praticar o ritual que escolhi do jeito que deve ser?", reclama. Ela também acredita que houve avanços e a novidade deste ano foi a oficialização do Dia Municipal da Umbanda e dos Cultos Afro-brasileiros. Os adeptos escolheram o 12 de março por acreditarem ter sido a data do primeiro batuque no formato da Mina maranhense na cidade, quando Mãe Doca fez a festa à Dom José.
O número de adeptos ainda não foi mensurado. Segundo Marilú, a Fundação Palmares ainda não pode liberar os dados do censo realizado em 2001 e 2002 nas principais capitais do país, incluindo Belém. Mas é indiscutível que muitas pessoas conciliam a prática de diferentes religiões, num sincretismo que também se expressa de duas maneiras na estrutura dos próprios cultos. Como explica Marilú, um se dá entre o catolicismo e os afro-descendentes. “Dia 4 de dezembro, pa ra o Catolicismo é dia de Santa Bárbara. Para o Candomblé, do orixá Yansan. Para a Mina, de Bárbara Soaeira”. E o outro, entre os próprios cultos afro-descendentes. “Você vai encontrar terreiro de Mina falando em voduns e orixás também. E no de Candomblé, em caboclos”, exemplifica. Esta categoria de sincretismo foi a que motivou o projeto "Tradição e inovação: um estudo sobre a Mina e o Candomblé na Amazônia". Ela diz que, até agora, não encontrou especificidades basilares no Candomblé paraense, como já acontece com a Mina, por isso mesmo chamada no estado de Mina-Nagô. "Por enquanto, eles praticam como aprenderam na fonte, a forma de cultuar os santos, de se vestir, de cantar... apesar de que a pronúncia, a entonação e a velocidade diferem".
Batuques - A antropóloga Anaíza Vergolino dedicou toda sua carreira acadêmica, de quase três décadas, na UFPA, à pesquisa de religiões afro, que ela considera ser o único nível associativo cultural que resiste até hoje. Ela identificou e publicou documentações inéditas sobre os escravos do século XVIII; sistematizou atributos mais vinculados aos cultos afro na região; e registrou a musicalidade da Umbanda e Mina-Nagô encontrada na região, numa ação que resgata pesquisas da década de 50 realizadas por Mário de Andrade. Essa linha resultou na chegada de dois CD´s ao mercado, com o selo "A música e o Pará", patrocinados pelo Governo do Estado: "A música de culto afro-brasileiro na Amazônia" e o duplo recém-lançado "Ponto de santo". Os dois têm encarte documental, reproduzindo parte das pesquisas de Anaíza, fotos dos terreiros, partituras e a letra das toadas.
"É importante para eles o resgate dessa memória. Mas também é muito clara pra mim a distinção que eles fazem entre fundamento, que é o conteúdo doutrinário deles, repassado de forma oral, e conhecimento, que é o tipo de trabalho de pesquisa que eu faço. E, além disso, todos esses trabalhos, inclusive o do professor Vicente Salles, que se dedica mais à inserção social do negro, vêm nos mostrar que essa presença africana aqui no Pará não foi tão pequena como se pensava; foi muito maior do que a história havia contado", ensina.
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