Uma casa de Candomblé - Parte III
Ao ao livre temos os Orixás que vivem no "tempo", ao pé de grandes árvores sagradas, como Ossaim, Bessém, Tempo, Iroco e outras divindades. Em um passado já longínquo, as roças de candomblé possuíam ainda outro espaço sagrado, as matas, onde se colhiam as folhas e se plantavam as árvores sagradas, próprias para os atos litúrgicos. Possuíam, muitas vezes também pequenos regatos de agua limpa. Com o crescimento das cidades, poucas casas, atualmente, contam com este espaço tão necessário para realização das cerimônias religiosas. Mas o ser humano é multifacetado e consegui, aos poucos, sobrepor-se aos novos obstáculos à realização dos seus cultos.
Em locais privados, algumas casas constroem canteiros onde plantam suas ervas e árvores especiais, criando, assim um espaço verde natural de onde extraem, em horários e com rituais específicos como mandam os fundamentos da religião, as quantidades de folhas que irão usar em seus banhos, infusões etc. Continuam, assim, a praticar uma liturgia que lhes permite viver com saúde e com a sua parte sagrada em perfeita sintonia com a natureza.
Englobando tudo isso, temos a parte física e humana da casa, a mas interesante e mas complexa. É neste convívio que se encontram enraizados os ensinamentos, os segredos, as tradições, as origens e, principalmente, a memória de um povo que sofreu com a brutal separação de sua pátria. É nesta divisão que também se preservam as louvações, os orôs, as danças, os cânticos e uma linguagem arcaica, ainda muito utilizada nos dias de hoje, que não é muitas vezes compreendida. É neste setor que as pessoas vão se conhecendo, entrelaçando suas vidas, formando nova família, e ajudando a enriquecer ainda mas a religião e aprendendo a conviver no dia-a-dia.
Tudo isso foi conseguido por uma comunidade que, na vida em conjunto, produziu regras próprias para boa convivência, esquecendo-se das diferenças sociais e intelectuais. São todos parentes míticos, não possuem laços consangüíneos, estão unidos pela religião, pela fé e pelo mesmo amor às divindades. E celebram todo dia o que temos de mais sagrado, a nossa vida, praticando uma comunhão integral e visceral com a ancestralidade.

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