Baphomet e as mentiras
George Washington
Baphomet
Por que o primeiro presidente dos EUA - o "Pai da Pátria" - está eternizado nesta estátua com mesma posição que o coisa-ruim? Só pode ser uma mensagem maçônica de que o capeta é o Senhor desse país, certo?
Antes de tudo é preciso dizer que o desenho acima foi INVENTADO por Eliphas Levi, um famoso ocultista francês, pra representar Baphomet no seu livro "Dogma e Ritual da Alta Magia", e a partir daí acabou virando a representação "oficial" do diabo pro público leigo. Só que, pra Eliphas (e pra quem o segue) esse desenho representava a "figura panteística e mágica do absoluto", ou seja, Deus, ou algo que na cabeça dele era a soma de tudo, do bem e do mal, da misericórdia e da justiça. É preciso lembrar que deuses cornudos eram cultuados na antiguidade e se tornaram "demoníacos" por conta da perseguição católica ao paganismo. A posição dos braços evoca o antigo aforismo de Hermes Trismegisto: "o que está em cima é igual ao que está embaixo". O que é comumente interpretado como o pênis gigante do Baphomet é o caduceu de Hermes (a energia dual que volta para o Criador) e pode muito bem ser a ESPINHA DORSAL do Baphomet, seu tarado! E nos braços estão escrito "Solve" e "Coagula", que são Dissolver (movimentar, ativo masculino, Yang) e Coagular (reter, passivo, feminino, Yin).
A semelhança é inegável
Além disso a posição dos braços/mãos representa não-somente o aforismo hermético, como simboliza a união de céu e terra, algo muito significativo para o oriente. Não é a toa que podemos vê-lo em representações hinduístas e budistas:
Shiva
Lakshmi
Podemos ver isso em uma estátua antiga (cuja origem não localizei) e até mesmo na arte Mexicana pré-colombiana:
E na arte cristã/católica:
Detalhe do quadro "Escola de Atenas", de Rafael, localizado dentro do Vaticano. Platão aponta para o alto (o mundo das idéias, do Eterno) e Aristóteles pra baixo (representando sua contribuição concretista à filosofia, voltada para as coisas da Terra)
Quadro "Noli me Tangere", de Antonio da Correggio. Significa "Não me toques", o que Jesus diz para Maria Madalena quando ela o vê ressuscitado (numa forma já não pertencente ao céu, nem à terra)
O gesto de Baphomet com as mãos significa, para Levi, a consciência plena das duas realidades da mente (céu e terra, conhecimento da essência e da forma das coisas), onde a imagem de Levi simboliza a consciência cósmica, o Todo. O gesto em si não é um símbolo satânico pela "beleza" da imagem. Na Índia ele é conhecido como Kapittakha Mudra (ou "Mudra do Buda sorridente" nos EUA):
Ele serve para abrir o fluxo de energia para o coração
Esse gesto também é usado no Catolicismo como sinal da bênção (Benediction), mas mantendo o polegar levantado, pra representar a Trindade:
Papa Gregório XVI (note os dois dedos da mão que aponta pra baixo, levemente mais abertos que os outros)
Mas esse senhor aqui (Papa Pio XII) aparece com o polegar quase fechando o circuito de energia, lembrando muito o mudra:
Pode ser que a origem pra seu uso no catolicismo nem seja romana, como se especula (o símbolo de "pedir a palavra" na Roma antiga era levantar o dedo indicador, usado até hoje, aliás), mas sim oriental, como podemos ver na iconografia bizantina:
Sempre desconfiei de que Buda tinha um pezinho no Rock n' Roll
Outro lugar onde o gesto é usado é na Itália, onde é conhecido como Mano cornuto e estima-se que tem relação com algum deus/deusa da fertilidade (e que tinha chifres, como muitos outros deuses do passado) e ironicamente TAMBÉM era usado pra repelir o mal (hoje tem o mesmo uso que aqui, pra designar maridos traídos). Infelizmente Anton Szandor LaVey fundou a Igreja de Satã em 1966 e adotou o símbolo como representação do diabo, o que provavelmente levou ao seu uso no Rock n' Roll pela banda Coven, claramente associada ao satanismo. Mas a primeira banda a usar o símbolo foram os Beatles, na divulgação do filme Yellow Submarine (1968). E o mais engraçado é que não tem NADA a ver com satanismo, e sim com AMOR.
Existe até selo comemorativo com o símbolo. Infelizmente o artista que fez a divulgação de Yellow Submarine por desenho colocou o polegar pra dentro (intencionalmente ou não), e aí sim se tornou o símbolo do cornuto:
Agora vocês já têm subsídios pra não se deixar enganar por qualquer idiota que SE DIZ pregando a palavra de Deus, espalhando mentiras e confusão, que são (na Bíblia) a arma de Satanás pra confundir e separar as pessoas.
Retirado de: Saindo da Matrix
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
A Teologia Antropológica
Ahura Mazda, Allah, Brahman, Duc Cao Dai, Ekam, El, G.A.D.U., Guaraci, Jah, Javé, Júpiter, Kukulkan, Odin, Olorum, Osíris, Quetzalcoatl, Rá, Zeus. Este é um pequeno exemplo de Deuses Supremos das várias religiões existentes. Ao longo dos séculos eles são considerados como os criadores do Universo pelas suas respectivas religiões. Mas como podemos ter certeza de que estes deuses não são falsos deuses? Afinal, do ponto de vista monoteísta, só pode existir apenas um Deus criador de tudo. Todas as religiões dizem possuir a doutrina certa, e como sempre, utilizam-se da máxima “só aqui encontrarás a verdade”. Entretanto como vimos, não existe um só Deus no campo religioso, e por haver essa pluralidade de entidades, as religiões precisam utilizar-se de algo que justifique a sua exclusividade doutrinária. Para isso apóiam-se nos livros sagrados. Entretanto todas as religiões possuem seus códigos canônicos os quais são considerados como a prova cabal para a veracidade do Deus em que acreditam. Agamas, Akilathirattu Ammanai, Alcorão, Analectos, Zend-Avesta, Bardo Todol, Bayan, Bhagavad Gitã, Bíblia, Cânon Páli, Dhammapada, Guru Granth Sahib, Kitáb-I-Aqdas, Mahabharata, Popol Vuh, Ramayana, Tao Te Ching, Thánh Ngôn Hiêp Tuyên, Torah, Upanixades, são um pequeno exemplo de livros sagrados que servem de base para a teologia das religiões que será construída pela análise desses livros.
O debate travado para justificar qual deus seria verdadeiro, e por fim, existente, esbarra no próprio meio de sua confirmação: A crença. Tudo o que se utiliza para justificar uma crença não passa do mesmo método e processo para justificar outra crença. Se o Islã se utiliza do Corão para justificar Allah, o Hinduísmo se utiliza do Upanixades para justificar Brahman. Se os cristãos se utilizam da Bíblia para justificar os milagres de Jesus, os astecas e maias se utilizavam do Popol Vuh para justificar os milagres de Quetzalcoatl. Se os Mórmons afirmam a veracidade da crença em Joseph Smith pelo Livro de Mórmon, os Bahá’ís afirmam sua crença em Bahá’u’lláh pelo Kitáb-I-Aqdas.
O simples fato de existirem diversos livros sagrados faz com que não se possa comparar nenhuma teologia com outra de modo a afirmar a veracidade de uma ou falsidade de outra. O fato de existirem diversas religiões é porque existem pessoas que creem nelas, e se creem é porque tem motivos pessoais. Entretanto por serem motivos pessoais não podemos tomá-los como fonte para uma conclusão unânime, pois a questão adentraria no campo da epistemologia, não havendo uma conclusão absoluta a cerca disso. Logo, os fatores da “crença” enquanto justificadora da fé, e da Teologia enquanto justificadora da doutrina, são inválidos para determinar qual religião é verdadeira, pois todas possuem suas teologias esquematizadas para justificar suas crenças, de modo que, não podemos comparar doutrinas teológicas como certas ou erradas entre elas, por todas serem esquemas filosóficos abstratos. Logo, não podemos tirar uma conclusão a partir de tal análise. Considerando esses fatos, ou existiriam todos os deuses acima, ou então cada um seria fruto da criação de uma determinada sociedade, não passando de mitos incorporados à respectiva cultura a que pertencem, desse modo, não existindo.
Algo que chama a atenção na análise dos deuses supremos acima citados, é que todos possuem características comuns. Ao considerarmos as características teológicas desses deuses, temos a seguinte conclusão: Todos eles são deuses que criaram o Universo e tudo o que há nele. Todos eles se revelaram à humanidade como criadores da mesma, os quais detêm total autoridade sobre a criação. Este é o ponto de partida para a consideração analítica dos fundamentos comuns entre esses deuses.
Aprofundando esta análise, temos os sete atributos da personalidade de Deus enquanto entidade suprema: Onipotência, Onipresença, Onisciência, Simplicidade, Imutabilidade, Infinitude e Aseidade. Como sabemos, nos primórdios da crença humana, o homem diante do poder desconhecido da natureza a considerou como um ente superior, independente e poderoso. Assim, todas as características da natureza transformaram-se em características divinas, que mais tarde foram consideradas em unanimidade como sendo parte da essência de Deus. Mas ao longo da história, Deus passou a interagir não mais como uma força desconhecida, mas como um ente que se comunicava com os homens. Considerando essa comunicação, o homem passou a compreender o que seria Deus. Com isso, se passou a considerar os atributos comunicativos de Deus para com a sua criação como uma forma de provar a sua existência.
Entretanto esses atributos são em suma atributos humanos como o conhecimento, a bondade, o amor, a santidade, a justiça, a verdade, a soberania e a vontade. Essas características humanas foram consideradas como divinas, em outras palavras, como características vindas de uma consciência superior, que devido à limitada natureza humana seriam algo inatingível em sua realização plena, como um sentimento de necessidade de perfeição. Entretanto como vemos tanto na teologia como na filosofia religiosa, até mesmo na descrição da imagem de Deus temos uma figura representativa puramente humana. Deus sempre toma a forma de homem, seja como um ente pessoal, mas não encarnável, como Osíris ou Zeus, seja como deuses encarnados como Jesus, Krishna, Hórus, ou Mitra. Em outras palavras, esse caráter humano demonstra que a origem de Deus está no próprio homem que em vez de ter sido criado à imagem e semelhança de Deus, teria criado Deus à sua imagem e semelhança, onde o ápice dessa necessidade de que o humano seja perfeito se mostra na personificação da divindade enquanto um ser humano como no caso dos deuses que vêm ao mundo com a missão de salvar a humanidade, como os acima citados.
Além do mais, a prova dessa formulação e posteriormente transformação da natureza divina, encontrasse explicitamente na crença judaico-cristã, quando no Velho Testamento Deus mostra possuir uma característica grosseiramente humana, vingativa e irada, tendo tal manifestação baseada na violência da própria natureza, assim como na personalidade vingativa de Zeus na Grécia Antiga, ou Odin na Cultura Nórdica, que por meio de fenômenos naturais demonstrava a sua ira para com a criação. Entretanto, quando Jesus vem ao mundo, Deus passa a ter uma atitude bondosa e clemente, mudando radicalmente a antiga imagem do deus irado do Antigo Testamento para um deus mais humano, baseado nos próprios princípios pregados por Jesus. Com essa radical mudança do “Deus-humano” do Antigo Testamento para a do “homem-Deus” do Novo Testamento, isto provaria que o Deus judaico-cristão, assim como os demais, seria uma criação humana para justificar suas dúvidas e desejos, sendo um puro reflexo da personalidade e pensamentos do homem na sociedade em um determinado tempo. Tal idéia foi apresentada já no Séc. VI pelo filósofo Xenófales de Cólofon. Segundo ele:
“Os homens imaginam que os deuses nasceram, vestem-se, têm voz e corpo como eles próprios. Por isso, Homero e Hesíodo atribuíram aos deuses tudo o que é vergonhoso e repreensível entre os homens: roubo, adultério, engano e outros atos ilícitos. Mesmo os bois, leões e cavalos, se tivessem mãos com as quais esculpir imagens, moldariam deuses de acordo com suas próprias forma e fariam seus corpos iguais aos seus próprios”.
De fato, até mesmo quando lemos algumas passagens bíblicas onde mostre a ação de Deus na criação, o mesmo se mostra como um Deus vingativo e covarde. Segundo a doutrina judaico-cristã, Deus amaldiçoou toda a humanidade e a criação devido a escolha de Adão e Eva (Gênesis 3:16-23 e Romanos 5:18), afogou mulheres grávidas, crianças inocentes, idosos e animais na ocasião do Dilúvio (“pereceu toda carne que se move sobre a terra” - Gênesis 7:20-23), atormentou os egípcios e seus animais com pragas e doenças pelo Faraó ter proibido os hebreus deixarem o Egito (Êxodo 9:8-11,25). Ainda matou crianças egípcias na época da Páscoa (“no meio da noite Deus feriu todos os primogênitos na terra do Egito... e houve grande clamor no Egito por não haver casa onde não houvesse um morto”). Depois do Êxodo, ordenou aos hebreus matarem homens, mulheres e crianças de sete nações e roubar suas terras, demolir seus templos, destruir seus símbolos e queimar as imagens de seus deuses (Deuteronômio 7:1-2). Fora isso matou o filho do rei Davi por causa do adultério deste com Betsabá (Samuel II 12:13-18), permitiu a tortura e o assassinato de seu próprio Filho (Romanos 3:24-25) e prometeu enviar para o sofrimento eterno todas as pessoas que não aceitassem e cressem em sua nova doutrina, o Cristianismo (Apocalipse 21:8).
Mas a questão crucial de tudo isso não está nos fatos relatados das ações de Deus, e sim por muitas pessoas aceitarem isso como normal, uma vez que creem em tudo isso como verdade. Essa crença cruenta denota claramente o fato do homem atribuir todas essas características humanas a Deus: violência, ódio, vingança, inveja, e desumanidade. Em nada isso se assemelha ao totalmente oposto Deus de amor e misericórdia que é apresentado por Jesus e personificado pela sua própria figura. Justamente pelo fato do homem criar à sua imagem e semelhança um ser superior para justificar suas dúvidas e desejos, isto nos leva a uma perigosa situação: Ao criar um ser tão temível e violento, o homem passa a justificar e a praticar os mesmos atos como sendo ordem de Deus. Desse modo justificam-se massacres, guerras, assassinatos e todo tipo de corrupção, uma vez que atos como esses sendo praticados pelo próprio Deus, poderão ser autorizados para os homens pela Sua ordem advinda de sua vontade. Desse modo temos todo o tipo de fanatismo expresso por meio da crença. Isso denota o grave problema que iria além do campo da Teologia. Existe uma linha muito tênue entre a fé e o fanatismo, uma vez que incorporando o mesmo espírito inicial de criar Deus para satisfazer seus próprios desejos, o homem ressuscitaria esses desejos por meio da sua ignorância motivada pela sua fé. Desse modo, por meio da religião, a crença em Deus seria um grande problema para a própria moral e ética do ser humano, que não saberia impor limites a ele mesmo, ironicamente ocasionado pela religião e pela crença, afinal, se Deus existe, tudo é permitido.
Um ponto interessante a se considerar sobre a questão do homem criar Deus segundo sua imagem e semelhança, diz respeito ao método em que se dá a convenção da figura de Deus no meio religioso. Todas as religiões possuem dogmas. Dogmas estes que são criados para justificar a análise de fatos apresentados nos textos sagrados. Esses fatos são muitas vezes narrativas envolvendo uma figura que possui um fator sobrenatural ou suprahumano que lhe confere uma importância especial em relação aos demais homens. Entretanto, tudo o que é apresentado como acontecimento suprahumano vem da tradição, esta, que está fundamentada por meio de mitos criados pelos homens. Desse modo, estes mitos são convencionados como verdades a partir dos dogmas. No processo de criação da doutrina, as conclusões já são antes apresentadas por meio dos acontecimentos narrados para depois serem justificadas pelos dogmas. Note-se que ao longo do tempo os dogmas evoluem de um fato simples para um sistema complexo, como se para cada necessidade de justificar uma lacuna de interpretação no mito apresentado se precisasse criar mais uma convenção.
Um exemplo disso é figura de Jesus no Cristianismo. Segundo a tradição cristã, Jesus é o Filho de Deus, o Messias profetizado nos textos judaicos, e o próprio Deus encarnado como Salvador da humanidade. Esta é a base mitológica canônica da figura de Jesus, aceita comumente no meio cristão como um todo. Mas nem sempre foi assim. Inicialmente a figura de Jesus representava um simples profeta, no contexto da sociedade judaica, que ensinava uma nova maneira de enxergar os ensinamentos da Torah, assim como denunciava os problemas da sociedade local. Mais tarde, elevou-se Jesus à condição de Messias judeu, como um homem capaz de livrar Israel de seus problemas. Após sua morte, os vários grupos religiosos se degladiaram para definirem qual visão a cerca de Jesus era a correta. Desse modo tinhamos desde o Jesus, o filósofo hermético, dos Gnósticos, até o Jesus, Deus encarnado, dos seguidores de Paulo. Somente com o Concílio de Nicéia, por meio de uma intensa e complexa convenção para formular uma única doutrina que seria tida como oficial pela comunidade cristã mais numerosa, uma vez que o cristianismo naquela época se dividia em dezenas de seitas, é que se oficializaram os dogmas da Igreja naquela época, como os da divina trindade, a eucaristia, a ressurreição de Jesus, e muitos outros que conhecemos hoje.
Até chegar a essa convenção atual, desde a morte de Jesus, a História presenciou um complexo processo de formulação de dogmas, estes, vindos das diversas interpretações apresentadas pelos vários grupos cristãos para justificarem seus argumentos defendidos. Ou seja, muito tempo depois da figura histórica de Jesus ter aparecido é que se convencionaram dogmas a seu respeito, fruto de uma intensa disputa doutrinária entre vários grupos cristãos. Como vimos, sendo frutos da criação humana, os mitos são justificados por dogmas, meras convenções humanas que possuem a finalidade de dar veracidade a uma crença apresentada. Devido a um grande conflito doutrinário, devido às diversas interpretações que surgiam pelas lacunas deixadas pelos textos da Bíblia e seus mitos considerados, a comunidade cristã majoritária, a comunidade de Constantinopla, queria definir uma linha de pensamento comum. Com isso dentro do movimento cristão surgiram grupos como os Arianos, Macedônicos, Originários, Princilianos, Donatistas, Nestorianos, Marcinianos, e muitos outros que cada vez mais criaram dogmas para justificar seus pontos de vista. Esse sectarismo doutrinário não se inicia com a clássica visão histórica da Reforma Protestante, mas desde a própria formação da Igreja, antes mesmo dela se tornar a Igreja organizada por Constantino por meio do Estado. Se voltarmos um pouco antes disso, veremos que havia disputas entre os próprios apóstolos após a morte de Jesus, onde Thiago defendia a conservação das tradições judaicas na nova comunidade, enquanto Paulo defendia um sincretismo entre os gregos, romanos e os judeus. Desse modo, com o triunfo do Cristianismo Paulino, o atual Cristianismo mostra uma imagem totalmente distante das tradições judaicas, estas das qual Jesus e seus seguidores originais eram adeptos.
Tais disputas doutrinárias por meio dessa necessidade de se fixar dogmas não só destruiu as tradições originais, mas também dividiu a comunidade em vários grupos pelas interpretações que defendiam. E desse modo a cada dogma convencionado por um grupo, este anulava o de outro. E essa disputa doutrinária não tinha fim, pois cada grupo queria se impor como sendo seguidor de uma verdade incontestável, uma vez que possuíam seus dogmas para justificá-la. Com isso, voltamos a entrar na velha questão: Quem está certo? Quem está errado? E como já foi visto, é impossível justificar uma crença por meio dela mesma, ou de um sistema de dogmas baseado nela mesma. Por isso os dogmas tornam-se inválidos para justificar uma crença como sendo um fator de veracidade da mesma por serem frutos de uma necessidade de justificar um mito, anulando a sua validade enquanto origem e finalidade. Os dogmas também não podem comparar uma religião com outra, uma vez que ela se limita somente à crença que abrange, sendo algo altamente subjetivo, e, portanto, se invalida na sua função de justificar a crença perante outra. Por isso, qualquer dogma pode provar a existência ou não de qualquer divindade assim como as premissas que ele defende.
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
2 anos de Iluminador
Pois é, hoje, dia 20 de Agosto, O Iluminador está completando seus 2 anos de vida. Embora ele ainda seja uma criança no mundo blogueiro, eu percebo uma grande evolução dos primeiros textos até chegarmos aos dias de hoje. Fazendo uma retrospectiva do blog, postarei os melhores textos de cada categoria, se bem que acho difícil selecionar apenas "o melhor" de cada gênero. Por isso postarei aqueles que marcaram a evolução do meu pensamento. A proposta inicial do blog, era ser uma "cópia" do Saindo da Matrix, do meu conterrâneo Acid. Nesse caso, a cópia se dava pelas reflexões e alguns textos tirados do SDM. O primeiro texto, que nesse caso não terá categoria, foi não só a abertura do blog, mas um dos que mais me marcou (e ainda me marca), por analisar a função da religião e suas mensagens. E principalmente, quebrar a dependência da espiritualidade para com a religião.
O ópio das massas: As religiões
- http://oiluminador.blogspot.com/2008/08/o-pio-das-massas-as-religies.html
Muitos me criticam pelo fato de eu ser cético, às vezes me chamando de ateu. Entretanto, atualmente eu me considero um agnóstico, no sentido básico da palavra. Simplesmente eu desconheço qualquer realidade metafísica, assim como Deus, e creio que jamais poderei compreender tal realidade. Por isso considero errado alguém dizer com plena certeza que "sabe" da existência de Deus, ou da sua inexistência. Curiosamente o texto que selecionei para a categoria de Agnosticismo é um diálogo entre Buda e um de seus discípulos, contido no célebre texto budista do Attakha. Há quem diga que no fim das contas Buda (e até Jesus) era agnóstico. Pelo jeito, ele realmente era.
Buddha e os donos da Verdade
- http://oiluminador.blogspot.com/2009/08/buddha-e-os-donos-da-verdade.html
Continuando essa cronologia, como tentei fazer o blog o máximo eclético, dediquei uma categoria especial ao Ateísmo, para mostrar os fundamentos dessa linha de raciocínio. Nesse texto que escolhi, é traçada uma linha temporal dos mais importantes ateus da história, desde Epicuro até Richard Dawkins.
A cronologia do pensamento cético, agnóstico e ateu.
- http://oiluminador.blogspot.com/2009/12/cronologia-do-pensamento-cetico.html
O Budismo sempre me fascinou. Primeiramente eu tinha uma visão muito mitológica do Budismo considerando Buda como um Deus, no sentido pessoal-cristão da palavra. Entretanto aos poucos revi todos os meus conceitos, e passei a valorizar todos os seus ensinamentos como simples metáforas para a auto-realização do ser humano. De fato, Buda pode (e deve) ser colocado ao lado de grandes nomes da espiritualidade mundial como Jesus, Krishna, Zaratustra e outros grandes mestres, pois quando analisamos seus ensinamentos vemos uma única mensagem: A evolução do homem a partir do conhecimento. O texto que selecionei é uma síntese dos ensinamentos do Budismo apresentado pelo próprio Dalai Lama, onde o Ecumenismo é o tema principal (o qual todas as religiões deveriam praticar).
O ecumenismo segundo o Dalai Lama
- http://oiluminador.blogspot.com/2008/10/o-ecumenismo-segundo-o-dalai-lama.html
Quem não gosta de Cinema? Nessa categoria tão especial foi difícil achar um texto em particular. Poderia ter escolhido textos mais antigos como o de Anjos e Demônios ou os inúmeros sobre Star Wars e sua Filosofia. Entretanto decidi escolher o último que escrevi sobre a categoria. "Ágora" é um filme espanhol que conta a história da filósofa egípcia Hipátia de Alexandria que vive nesta sociedade durante o século II, onde o Império Romano começa a desmoronar e aos poucos inicia-se uma série de conflitos entre os diversos credos que existiam na cidade, desde os cultos gregos, romanos e egípcios até o Judaísmo e o recém nascido Cristianismo. O filme aborda principalmente a incoerência do fanatismo frente as mensagens de tolerância pregadas pelas religiões.
Ágora - O Filme
- http://oiluminador.blogspot.com/2010/07/agora-o-filme.html
O Cristianismo é a maior categoria do blog, afinal é a que eu mais desço o verbo. Eu critico desde a institucionalização da religião através das Igrejas, as quais para mim não possuem nenhum valor moral ou espiritual a acrescentar à mensagem de Jesus, à não ser a dogmatização ritualística e a limitação da própria mensagem do mestre, até as próprias concepções da figura do Cristo, que para mim não passou de um mero professor igual a Buda ou Sócrates. Entretanto o prestígio e a importância de Jesus na História se dá justamente pelo conteúdo de seus ensinamentos, os quais são ímpar diante de um mundo cheio de ignorância. E para mim essa é a síntese da sua mensagem, assim como as dos demais mestres: A extinção da ignorância humana. Por isso sintetizo toda a mensagem do Cristianismo e das demais religiões em uma única palavra resultado dessa extinção da ignorância: Paz.
Paz
- http://oiluminador.blogspot.com/2009/05/paz.html
A categoria Cultura agrega quase tudo, música, literatura, artes em geral e toda produção humana em sua sociedade. Mas limitando um pouco o conceito de Cultura e tomando particularmente o exemplo do carnaval brasileiro, coloco um texto sobre o carnaval desse ano e suas "grandes" produções culturais versus a cultura tradicional.
O carnaval melhor do meu Brasil
- http://oiluminador.blogspot.com/2010/02/o-carnaval-melhor-do-meu-brasil.html
Eu sou um universitário do curso de Direito. E ao longo desses dois anos de cursos eu vi e cansei de ver como a educação no Brasil sofre com um problema grave: A falta de cultura entre os jovens. E é sobre essa falta de cultura, principalmente a falta de politização dos estudantes do curso de Direito (que deveria ser o curso mais polítizado).
Os jovens e a anestesia política
- http://oiluminador.blogspot.com/2010/07/os-jovens-e-anestesia-politica.html
Economia não é um dos meus assuntos preferidos, mas por estar intimamente ligada à Política eu decidi tratar dela. E uma das coisas que muito me incomoda é o fato dela atualmente está entrando em atrito com as políticas ambientais, uma vez que no sistema capitalista questões ambientais vão de encontro aos interesses do mercado econômico. Entretanto no meio dessa querela que pode definir o futuro do planeta descobri uma solução revolucionariamente viável: A Economia baseada em recursos.
Economia Baseada em Recursos
- http://oiluminador.blogspot.com/2009/11/economia-baseada-em-recursos.html
A Filosofia para mim é o centro de tudo o que faço atualmente. De fato ela mudou minha vida e meu modo como vejo o mundo. Se tem algo que eu aprendi com ela é que tudo (principalmente suas concepções) mudam a todo instante, e isso realmente acontece a toda hora, confirmando o fato de Sócrates dizer que no fim das contas ele não sabe de nada. E é um fato. A questão mais debatida do mundo é acerca da existência de Deus, e em um dos textos expus minhas reflexões sobre essa questão, que para mim não tem solução (graças à Deus).
Deus ou não-Deus? Eis a questão
- http://oiluminador.blogspot.com/2009/07/deus-ou-nao-deus-eis-questao.html
A Fé Bahá'í é uma religião iraniana que surgiu com Bahá'u'lláh ("A Glória de Deus"). Ela prega a união dos povos e das crenças como uma solução para a paz mundial. Suas mensagens de tolerância são sua marca, nas quais a mesma defende que as mensagens das demais religiões são uma só: A prática do amor e do respeito ao próximo como um meio de se chegar a Deus.
Bahá'u'lláh e a Unidade da Consciência
- http://oiluminador.blogspot.com/2009/03/bahaullah-e-unidade-da-consciencia.html
O Hinduísmo é uma religião tão diversificada de seitas quanto o Cristianismo, por isso é impossível definir uma linha de pensamento como sendo "oficial". Uma dessas vertentes é a escola Vaishnava, na qual Deus é tido como um ser pessoal assim como o Cristianismo, e a figura do "Cristo" indiano se dá através do Avatar Krishna, a encarnação de Deus na Terra. A mitologia e história de vida do Messias indiano é quase um espelho da vida e obra de Jesus o que até hoje gera um atrito entre os tradicionalistas e os que defendem essa visão eclética.
Azulão, o retorno
- http://oiluminador.blogspot.com/2008/09/azulo-o-retorno.html
O Islã para mim é uma das religiões mais belas e incompreendidas do mundo. Ignorando toda a visão errônea de uma religião violenta e intolerante, o Islamismo se mostra justamente o contrário, onde suas mensagens pregam justamente a paz e a torerância entre as demais religiões como o Judaísmo e o Cristianismo. Um dos textos dessa categoria mostra justamente esse lado ocultado do que é verdadeirament o Islamismo.
O Corão e sua verdadeira mensagem
- http://oiluminador.blogspot.com/2009/02/o-corao-e-sua-verdadeira-mensagem.html
Curiosamente a próxima categoria é justamente sobre o Judaísmo e nela um dos textos que mais gosto é falando sobre a questão tão criticada pelos evangélicos das "esculturas" e "imagens" que para o Judaísmo seria uma afronta à lei de Deus, entretanto parece que as coisas não são bem assim.
Eu não sou contra a arte, diz o Senhor
- http://oiluminador.blogspot.com/2009/07/eu-nao-sou-contra-arte-diz-o-senhor.html
Cordel é um tipo de literatura nordestina que traduz mais fielmente a cultura popular local. Mas ao contrário do que muitos pensam sobre a cultura nordestina, o Cordel se utiliza da literatura como uma arma crítica, principalmente a respeito da cultura brasileira. E em um desses textos de Cordel, o artista baiano Antônio Carlos de Oliveira Barreto traçou uma pesada crítica para cima da alienação criada pelo BBB e a Rede Globo.
Cordel: O encontro da Música com a Literatura
- http://oiluminador.blogspot.com/2010/01/cordel-o-encontro-da-musica-com.html
Na próxima categoria, Música, o texto mais expressivo trata do maior gênero da música pernambucana para mim: o Manguebeat. Mais que um gênero musical, ele é um movimento que busca nos elementos mais simples da vida pernambucana, a expressão de críticas sociais e políticas a cerca da opressão e da realidade vivida pela sociedade. De fato, o Movimento Manguebeat revolucionou a música brasileira, mostrando um jeito alternativo de se criar música.
Meu Chico é Science
- http://oiluminador.blogspot.com/2010/04/meu-chico-e-science.html
Ao lado da Religião e da Filosofia, a Política é um tema que norteia a minha vida. Para mim, todo homem deveria ser politizado, ter um mínimo de consciência política, pois hoje em dia é drástica essa "anestesia política" que domina nossa sociedade. E ao estarmos perto do período eleitoral e vendo gente que diz que votará em tal candido pelo fato de "ir com a cara", ou dele ser bonito, ou da campanha parecer a mais organizada, mostra uma clara alienação da população alimentada pela mídia marketeira que torna a eleição um mero showbiz da sociedade brasileira. Por isso o texto sobre Política que escolhi é uma crítica-apelo para que a população abra os olhos para os absurdos que a mídia e os poderosos estão cometendo nessas eleições que estão para ocorrer. Para complementar esse texto leiam a parte 2.
Debate entre os candidatos - Parte 1
- http://oiluminador.blogspot.com/2010/08/debate-entre-os-candidatos-parte-1.html
As religiões são tão antigas quanto a humanidade. E por não termos uma cultura de resgatarmos e entendermos o passado da História, principalmente o das religiões nós não sabemos de onde elas vieram. Mas uma coisa eu garanto, elas não caíram prontas do céu. Sobre as Religiões Antigas, postarei esse texto com o gráfico histórico que mostra as origens e as ligações das demais religiões umas com as outras.
De onde vieram? Para onde vão?
- http://oiluminador.blogspot.com/2009/04/de-onde-vieram-para-onde-vao_20.html
Ao ouvirmos falar de Sociedades Secretas logo associamos à Maçonaria e teorias da conspiração, entretanto, esse assunto é recheado de mitos e histórias que não condizem com a realidade. E uma dessas organizações tão mal compreendidas e desconhecidas é a Opus Dei. Mais que uma sociedade secreta Católica, ela é o braço direito do conservadorismo que luta por manter as tradições milenares da Igreja.
A farsa da Obra de Deus
- http://oiluminador.blogspot.com/2010/02/farsa-da-obra-de-deus.html
A Sociologia é o estudo das relações sociais do homem para com seu semelhante. Por ser um amplo estudo sobre essa interação humana, a Sociologia abrange várias áreas do conhecimento desde a História até a Política. Por isso nessa categoria resolvi escolher um dos textos mais polêmicos falando sobre as relações Brasil x Irã e os temores dessas aberturas políticas no Ocidente frente às denunciadas ameaças nucleares.
Democracia é o Direito da Pluralidade
- http://oiluminador.blogspot.com/2009/11/democracia-e-o-direito-da-pluralidade.html
O Taoísmo é uma religião chinesa tão mal compreendida quanto a essência dos seus ensinamentos. Fundada pelo mestre Lao Tsé, a mesma possui princípios tão idênticos quanto o Budismo e o Cristianismo, embora os trate a partir de uma visão altamente hermética, na qual somente os mais versados na filosofia oriental e sua hermeneutica podem compreender o real sentido de suas metáforas, e principalmente, compreender a verdeira essência do Tao.
Lao Tsé e o Tao Te Ching
- http://oiluminador.blogspot.com/2009/07/pouco-se-sabe-com-certeza-sobre-lao-tse.html
Já na categoria Teatro a menor de todas, possui uma quadrologia dos textos que para mim são os mais importantes do blog. Eles tratam o espetáculo da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém sob uma óptica altamente filosófica. Para mim, esses textos são o resultado máximo das minhas reflexões sobre o Cristianismo e os ensinamentos de Jesus. Mais do que uma nova visão acerca do espetáculo sobre a vida de Jesus, esses textos são uma evolução do meu modo de enxergar a importância da figura de Jesus na História dando um novo valor ao conteúdo das suas mensagens. Para compreender por completo, leiam as partes 2, 3 e 4.
A Filosofia na Paixão de Cristo
- http://oiluminador.blogspot.com/2010/04/filosofia-na-paixao-de-cristo-parte-1.html
Ufologia é algo que sempre me trouxe muitas dúvidas, pois ao mesmo tempo em que a mesma se mostra como fruto da cultura humana, vários casos e fatos nos trazem à tona a real possibilidade de haver vida fora do planeta. Cercada de mitos e histórias, a Ufologia possui até análises religiosas e espirituais, nas quais uma delas defende a teoria de que Jesus era um ser extraterreno. Pode ser polêmico, mas literalmente faz muito sentido.
Jesus era um astronauta
- http://oiluminador.blogspot.com/2008/12/jesus-era-um-astronauta_20.html
Por fim, a última categoria é o Zoroastrismo. Para mim essa é uma das maiores religiões já existentes, pois mais que uma crença com dogmas e mitologia, o Zoroastrismo se mostra um verdadeiro tratado de ética e filosofia a cerca da evolução do homem na Terra. A vida de Zaratustra é tão similiar a dos demais mestres como Jesus, Buda ou Mohammed, a ponto serem vistos elementos comuns nos episódios vividos por ele, tornando o mito uma sequência lógica de acontecimentos, uma "jornada do heroi".
Zoroastro e o Zoroastrismo
- http://oiluminador.blogspot.com/2009/07/zoroastro-e-o-zoroastrismo.html
terça-feira, 27 de julho de 2010
Ágora - O Filme

Lançado em 2009, Ágora é um filme espanhol que conta a história da matemática e filósofa egípcia Hipátia de Alexandria. O filme se passa no século II d.C. na histórica cidade de Alexandria durante o início da decadência do Império Romano. A história gira em torno dos conflitos religiosos e políticos que cresciam cada vez mais no território romano dominado por um caldeirão cultural a ponto de explodir. Além disso, o filme mostra a decadência das religiões greco-romanas que aos poucos deram lugar ao Cristianismo. Por ser uma mulher contestadora e à frente do seu tempo, Hipátia aos poucos vira alvo do clero cristão vindo a ser perseguida pelo mesmo até culminar em sua trágica morte.
Filha do filósofo Theon, o último diretor da Biblioteca e Academia de Alexandria, Hipátia cresceu em um ambiente intelectual o que lhe fez mais tarde se tornar um dos professores da academia. No filme, Hipátia (vivida pela atriz Rachel Weisz) se mostra como uma grande professora em busca de compreender a organização dos astros. Assim como na sociedade alexandrina, entre seus alunos há uma diversidade de credos desde cristãos à pagãos, o que gera um atrito em questões existencialistas e metafísicas entre os alunos, como Orestes (Oscar Isaac) e Sinésio (Rupert Evans), que mais tarde se tornariam o prefeito de Alexandria e o bispo de Cirene, respectivamente. Por ser uma das cidades mais importantes do Império, Alexandria é um porto para todos os povos e culturas. No século II, a cidade comportava os demais credos existentes desde o Cristianismo até os cultos egípcio, grego e romano, além do Judaísmo, que após a diáspora, fez o povo judeu se espalhar pelas cidades do Império. É interessante notar que com a expansão do Cristianismo, através do movimento de evangelização por parte dos discípulos e seguidores de Jesus, a religião cristã se espalhou por todo o Império, chegando nas suas maiores cidades como Alexandria. O problema é que em uma cultura marcada pelo politeísmo, o choque teológico tornou-se inevitável e com esse duelo de ideologias criou-se um outro problema tão atual: o fanatismo.
No filme, o conflito gerado entre cristãos, pagãos e judeus torna-se cada vez pior, uma vez que o grupo cristão dos monges parabolanos tornou-se cada vez mais violento, criando uma verdadeira cruzada contra os pagãos e judeus. Os grupos religiosos se confrontam frequentemente, à ponto de criarem represálias após cada ataque de um grupo opositor. É interessante que enquanto os diversos grupos religiosos entram em conflito, Hipátia e os demais filósofos evitam que seus alunos participem dos confrontos. Primeiro, o monge parabolano, Amônio, ataca um sacerdote egípcio numa praça (em grego, "ágora", daí o nome do filme), o que depois deflagra uma vingança por parte dos pagãos que perseguem e matam vários cristãos em Alexandria. No filme, Hipátia possuia um escravo chamado Davus (Max Minghella), que era secretamente apaixonado por ela. Hipátia também era cortejada por Orestes, entretanto, recusou o seu amor pois preferia viver somente para a Filosofia. Mais tarde, Davus, ao presenciar os conflitos entre cristãos e pagãos, conhece o monge Amônio que lhe introduz ao Cristianismo, mostrando-lhe a assistência social que os monges faziam naquela época ajudando os pobres. Aos poucos ele é convertido ao Cristianismo por causa das mensagens de esperança pregadas por Jesus. Com isso, ele vive um dilema: viver pela Igreja, ou por Hipátia.
Com o tempo o número de cristãos aumenta consideravelmente, fazendo do Cristianismo, antes, uma religião perseguida, para uma religião perseguidora. Após o massacre dos cristãos, os mesmos se organizam para se vingarem dos pagãos. Liderados pelos monges parabolanos, os cristãos atacam a comunidade pagã matando-os e destruindo seus templos. Além disso, o outro alvo dos cristãos foi justamente a Academia de Alexandria, símbolo da cultura greco-romana, sendo destruída juntamente com a grande Biblioteca. A perda cultural foi incalculável, uma vez que a clássica biblioteca era a maior da época contendo os textos mais importantes da literatura antiga. Junto com seus estudantes, Hipátia só conseguiu salvar poucos volumes antes de fugir da Biblioteca, invadida pelos cristãos. Neste episódio, Davus deixa Hipátia para trás e se junta à turba dos cristãos para ajudar a destruir a Biblioteca e queimar seus volumes. Após este evento, o governo, vendo que os cristãos estavam em maior número, proibiu pagãos de realizarem seus cultos, e pela primeira vez, foi instaurada a proibição da liberdade religiosa em Alexandria. Com isso, o Templo de Serápis foi transformado em uma igreja cristã, e a Biblioteca num estábulo e depósito. É interessante notar esse sincretismo, onde os templos e até mesmo as figuras religiosas pagãs são transformadas em imagens cristãs. O altar do templo egípcio se torna o altar cristão, e as figuras antes representando os deuses pagãos se tornam santos e anjos cristãos. Por sinal, é possível ver esta clara "transmutação" da iconografia egípcia para a religião cristã, onde as figuras dos deuses alados egípcios na porta do templo, iriam se tornar mais tarde os anjos cristãos, seres divinos dotados com asas.
Tempo depois, o patriarca de Alexandria, Teófilo, morre e em seu lugar assume Cirilo de Alexandria (Sami Samir), um sacerdote conservador que aos poucos garante mais poder aos monges parabolanos, que se tornam um exército pessoal da comunidade cristã. Agora, Alexandria está sendo governada pelo prefeito Orestes, ex-aluno de Hipátia, que é moralmente forçado a se converter ao Cristianismo, uma vez que a maioria na comunidade alexandrina é cristã, o que lhe ajudaria na imagem de seu governo. Hipátia ainda mantém contato com seus ex-alunos e lhes pede conselhos em relação à situação da sociedade alexandrina. Com a Academia e a Biblioteca destruida, Hipátia não ensina mais, entretanto continua a estudar a organização dos astros. No filme, ela busca uma solução para uma explicação alternativa ao modelo geocêntrico de Ptolomeu. Seguindo as teorias do matemático grego Aristarcos de Samos, que dizia que o Sol e não a Terra era o centro do sistema dos astros, ela aos poucos confirma a teoria heliocêntrica, que só seria oficializada séculos mais tarde por Copérnico na Europa renascentista. Isso também seria uma das razões para ela ser perseguida pelos cristãos.
Embora os pagãos tenham sido proibidos de professar sua fé, a comunidade judaica ainda continuava com seus rituais, e num dia de sábado, um grupo de parabolanos, liderado pelo monge Amônio invade um evento cultural judeu numa arena e apedreja alguns espectadores. Isso causou um atrito entre a comunidade judaica e Orestes, forçando-o a ficar do lado dos cristãos devido à influência dessa comunidade. Como represália, numa noite, os judeus anunciaram um suposto incêndio numa igreja cristã, fazendo os monges irem até o local para evitar o dito incêndio. Após serem encurralados, os judeus apedrejam os parabolanos. Em resposta ao ataque, Orestes, incentivado por Cirilo e comunidade cristã, decretou a expulsão dos judeus da cidade de Alexandria. Após isto, Hipátia vai até Orestes alertá-lo sobre o perigo pelo fato dos parabolanos e o próprio Cirilo terem adquirido tanto poder na comunidade alexandrina. Durante uma Missa, Cirilo discursa sobre a autoridade da Bíblia e a Igreja, criticando Hipátia, e o fato dela interferir na ordem divina acusando-a de ser uma feiticeira e de negar Deus. Incomodado, Orestes não se ajoelha diante da Bíblia e Cirilo o acusa de não ser cristão diante da comunidade. Ao sair da igreja, Orestes é atacado por Amônio levando uma pedrada na cabeça. Este fato iria por em choque a comunidade cristã e Orestes que mandou prender e matar Amônio.
Após este fato, Cirilo nomeou Amônio um mártire, tornando-o um santo com o nome de Taumásio. Entretanto, mais tarde o ato seria revogado, visto que Amônio morreu por um crime comum e não por defender sua fé. Agora, os cristãos querem vingar a morte de Amônio, e os parabolanos em vez de tentar matar Orestes, buscam algo mais importante que ele: Hipátia. Davus, que agora se tornara um monge parabolano, escuta as tramas dos monges para matar Hipátia. No dia seguinte ele vai até a casa dela para avisá-la sobre esta conspiração, entretanto ela estava na prefeitura conversando com Orestes sobre a violência desenfreada que agora o governo não tinha mais controle. Após sair da prefeitura ela é capturada pelos monges. Ao ver que chegou tarde, Davus fica transtornado e a acompanha até a Igreja principal, o antigo Templo de Serápis. No caminho ela é escarnecida pelos monges. Dentro da Igreja ela é despida e colocada para ser morta, entretanto como ninguém tinha uma espada, Davus sugere que a apedrejem. Com isso, ele em segredo e com a concordância de Hipátia, a sufoca para que ela não sofra com o apedrejamento. O filme termina com os monges se reunindo ao redor e apedrejando Hipátia.
Curiosamente Ágora não é um filme tão divulgado, até mesmo na internet, pois tive muita dificuldade para encontrá-lo, pelo fato de mostrar um episódio não comentado nem divulgado da história cristã, pois mostra que antes de serem um grupo perseguido pelo Império Romano, os cristãos também eram um grupo que perseguia os pagãos em uma terra que possuia liberdade religiosa, esta, mais tarde vetada pela Igreja. Por este fato, o filme teve problemas com seu lançamento em Alexandria, na Itália e nos EUA, e até mesmo nos países islâmicos, devido às suas cenas de nudez. Embora com todas estas tentativas de esconder este episódio da História, é interessante notarmos que os conflitos religiosos não se deram porque apenas um grupo os iniciou, embora no filme, o ponto de partida para tais conflitos se dê a partir dos monges parabolanos, mas sim porque o ambiente de fervor religioso contribuiu para que isto acontecesse, intensificando-os cada vez, tornando antes de uma luta religiosa, uma luta política e social. A mensagem que o filme quer mostrar é justamente que a intolerância e o fanatismo levam à conflitos que não condizem com a mensagem que as próprias religiões querem passar. Não é questão de quem está certo ou quem está errado, mas sim de respeitar e conviver com as diferenças, pois no fim das contas todos nós buscamos a mesma coisa: a Verdade, seja por meio da religião, da filosofia ou da ciência.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
O Orfismo e a Reencarnação

O orfismo é um movimento religioso complexo onde se detectam influências dionisíacas, pitagóricas, egípcias, apolíneas e, obviamente, orientais. Teria sido fundado por Orfeu, um herói lendário da grécia e patrono da música.
Há dúvidas se Orfeu teria sido um personagem histórico. Reza a lenda que ele teria nascido na Trácia e era filho de uma Musa (provavelmente Calíope, patrona da poesia épica e a mais importante das musas) e Eagros, rei da Trácia. Outra versão apresenta-o como filho do próprio Apolo. Orfeu é considerado como o maior músico da antigüidade, não só pela música, como pelo canto. Todos os poetas antigos celebraram sua lira e sua cítara, que teria sido inventada ou aperfeiçoada por ele (pois aumentou-lhe o número de cordas, de sete para nove, numa homenagem às Nove Musas). Seus acordes eram tão melodiosos que os homens e os animais quedavam paralisados para o escutar. Os animais ferozes deitavam-se a seus pés como cordeiros; as árvores vergavam para melhor escutá-lo; os homens mais coléricos sentiam-se penetrados de ternura e bondade. Educador da humanidade, conduziu os Trácios da selvageria para a civilização. Iniciado nos "mistérios", completou sua formação religiosa e filosófica viajando pelo mundo. Ao retornar do Egito, divulgou na Grécia a idéia da "expiação das faltas e dos crimes", bem como os cultos de Dioniso e os mistérios órficos, prometendo, desde logo, a imortalidade a quem neles se iniciasse.
Possui-se hoje uma visão razoável do orfismo através dos diversos escritos, principalmente os textos de Platão e Virgílio, que o integraram no seio de suas obras. O orfismo oscila entre o culto a Dioniso (ou Dionísio), que sempre desejou romper a camisa-de-força da religião tradicional da pólis grega, e Apolo, cuja seriedade corrigia os excessos e os desvairios dionisíacos. Este culto comandou a religião estatal com mão de ferro, freando qualquer inovação que significasse um rompimento com o "métron" (medida ideal), tão conhecidos na lição apolínea por excelência: Conhece-te a ti mesmo e nada em demasia. A inteligência, a ciência e a sabedoria são consideradas pelos seguidores de Apolo como modelos divinos. A serenidade apolínea tornou-se, para o homem grego, o emblema da perfeição. Esta aproximação que Orfeu faz dos dois deuses antagônicos tem um certo sentido: segundo Eliade, o espírito grego exprime por ela sua esperança de encontrar uma solução às crises desencadeadas pela ruína dos valores das religiões homéricas (cujos valores podemos perceber nas obras Ilíada, Odisséia, e nos hinos homéricos, todos atribuídos ao poeta grego Homero.
Mitologia
Orfeu é essencialmente um reformador. O orfismo quebra com a religião homérica, principalmente no tocante à sua teogonia. Salienta-se que a teogonia de Homero foi transmitida pelos rapsodos gregos. Sumariamente, a teogonia órfica afirma o seguinte: na origem estava Cronos (o Tempo) e dele saíram o Éter e o Caos, que geraram o Ovo Cósmico, um ovo de prata imenso (daí a proibição de se comerem ovos). Desse Ovo surgiu o deus andrógino Fanes, mais tarde chamado de Eros. Após seu nascimento, a parte superior do ovo tornou-se o céu e a parte inferior, a terra. Fanes criou a Lua e o Sol, os outros deuses e o mundo. Zeus, contudo, engole Fanes e toda a criação. Houve a produção de um mundo novo, tornando-se, a partir daí, o criador único. Um papiro, descoberto em 1962, revela uma teogonia ainda mais radical: um verso, atribuído a Orfeu, proclama que "Zeus é o começo, o meio e o fim de todas as coisas". A seguir, Zeus criou um numeroso panteão no qual é preciso salientar Dioniso-Zagreu, que terá papel fundamental no culto do orfismo.
A mitologia conta que Zagreu, o primeiro Dioniso, era filho de Zeus com Sêmele. Os Titãs, a mando de Hera, raptaram Zagreu, mataram-no e cozinharam-no num caldeirão. Em seguida, o devoraram-no. Zeus, possesso, fulminou os Titãs, transformando-os em cinzas. Dessas cinzas nasceram os homens, com sua dupla natureza: o mal advindo de sua natureza titânica, e o bem, representado pelo menino Dioniso-Zagreu, que os Titãs tinham devorado. A chispa do divino, que o homem carrega dentro de si, advém pois de Dioniso, deus da fertilidade e também da morte. Na religião dionisíaca inexiste, contudo, esperança escatológica, enquanto o orfismo é essencialmente soteriológico (prega a salvação humana).
Características
O orfismo rejeitava os ritos antigos, nos quais os iniciados despedaçavam animais ainda vivos, para consumo do sangue e da carne, pois os orfistas eram radicalmente vegetarianos.
De Apolo, herdou uma componente da catarsis (purificação, ou purgação), tão praticada no oráculo apolíneo de Delfos, mas era radicalmente contra a idéia de Apolo de que esta visava prioritariamente a purificar o homicídio. Os órficos eram ascéticos, que purificavam-se nesta e na outra vida, visando libertar-se do ciclo das existências. A religião apolínea era o bem viver; a órfica, o bem morrer.
Os órficos substituíram a "folia" dionisíaca pela catarsis apolínea. Através da prece e da oferenda, a purificação é um dos ritos principais das religiões antigas. Tudo que é impuro provoca a repulsão dos deuses e, por impuro, entende-se tanto a alma quanto o corpo. Convém notar que, por purificação, entende-se tanto a individual como a coletiva. Na antigüidade grega, quando se cometia um crime, o castigo recaía não só sobre o criminoso como sobre todo o seu clã. Assim, uma pretensa purificação de um crime tinha que ser não só individual como coletiva. Os cultos dionisíacos eram secretos e envoltos em mistério (ao contrário dos cultos apolíneos, que eram públicos). Por sinal, conhece-se muito pouco destes ritos secretos e destas iniciações órficas. Os órficos resolveram o problema da culpa de forma original na cultura grega: a culpa é sempre de responsabilidade individual e por ela se paga aqui; quem não conseguiu purgar-se nesta vida, pagará por suas faltas no além e nas outras reencarnações até a catarsis final.
A semelhança entre o orfismo e o pitagorismo, nos aspectos religiosos, é por demais sintomática: o dualismo corpo-alma, a crença na imortalidade da alma, a metempsicose, a punição no Hades (inferno), a glorificação final da psiqué nos Campos Elíseos, o vegetarianismo, o ascetismo e a importância das purificações. Por outro lado, o orfismo era menos elitista do que o pitagorismo, menos esotérico e não se imiscuia em política.
Reencarnação
É importante aqui salientar o caráter monoteísta do orfismo, que representa uma ruptura importante com os mitos olímpicos advindos dos rapsodos homéricos. O orfismo propugna por uma noção de um deus criador, soberano, simbolizando a vida universal. Contudo, o rompimento mais radical com o mito homérico é na parte escatológica, ou seja, na ciência dos fins últimos do homem, naquilo que deverá seguir à vida terrestre. A descida ao Hades simboliza a vida após a morte. A concepção órfica da imortalidade advém de um crime primordial: a alma está enterrada no corpo como se fosse um túmulo (soma-sema, que significa corpo-túmulo). Como conseqüência, a existência encarnada se assemelha mais a uma morte, e o falecimento constitui o começo da verdadeira vida. Esta verdadeira "vida" não é obtida automaticamente; a alma será julgada segundo as suas faltas e os seus méritos. Após um certo período, ela reencarna. A influência egípcia – julgamento de Osíris e reencarnação – é insofismável no orfismo. Nessa via crucis, de reencarnação em reencarnação, até mesmo em corpo de animais (metempisocose), a alma vai se purificando. Nesses intervalos reincarnacionistas a alma chega a demorar uns 1000 anos no castigo do inferno, onde sofre um ciclo de pesadas penas. Quando completamente purificada, sai desse ciclo de gerações para reinar entre os heróis. O destino, obviamente, não será o mesmo para os iniciados órficos e os profanos. O mortal comum profano deverá percorrer dez vezes o ciclo antes de escapar.
Um artefato importantíssimo no orfismo são as "lamelas órficas". São pequenas lâminas ou placas de ouro, descobertas na Itália meridional e na Ilha de Creta, e em túmulos órficos. São todas marcadas com o sinal secreto Y, até hoje um mistério. Delgadas e elegantes, enroladas sobre si mesmas, eram depositadas em pequenas placas hexagonais. Estas, presas a correntes de ouro, eram colocadas no pescoço dos iniciados, como talismãs, à maneira de passaporte para a eternidade.
Numa das lamelas encontradas, estão incrustados versos de aconselhamento à alma do morto para sua viagem em direção ao Hades. Em lá chegando, deve escolher entre um caminho da direita e um da esquerda. "À esquerda da morada do Hades, tu encontrarás o Lago da Memória (Lethes), e os guardiões estarão lá. Diga-lhes... eu sou o menino da Terra e do Céu estrelado, mas estou morrendo de sede. Dá-me rapidamente a água fresca que flue do Lago da Memória". Para a alma que deve retornar a terra para reencarnar-se, essa água do Lethes tem por função não esquecer sua existência terrestre, mas eclipsar a recordação do mundo pós-morte. O orfismo assim reverte a função da água do Esquecimento pela nova doutrina da transmigração. O esquecimento não simboliza mais a morte, mas o retorno à vida. A alma que teve a imprudência de beber na fonte do Lethes reencarna e será novamente projetada no ciclo do devir.
Para aquelas almas que não precisam mais se reencarnar, é aconselhado evitar a água do Lago da Memória e passar ao caminho da direita. E está escrito numa das lamelas: "Venho de uma comunidade de puros, ó puro soberano dos Infernos". Ao que Persófone replica: "Saúdo-te, toma o caminho da direita em direção aos prados sagrados e aos bosques de Perséfone".
A sede da alma, comum a tantas culturas, configura não apenas o refrigério, pelo longo caminhar da mesma em direção a outra vida, mas sobretudo, simboliza a ressurreição, no sentido da passagem definitiva para um mundo melhor. Se, para os gregos "os mortos são aqueles que perderam a memória", o esquecimento para os órficos não mais configura a morte, mas o retorno à vida.
Conclusão
Orfeu não morreu com a Grécia antiga. A sua figura continuou a ser reinterpretada pelos teólogos, tanto judeus quanto cristãos. Especialmente cristãos, se considerarmos que o cristianismo como o conhecemos floresceu na Grécia e em Roma. Nos afrescos das catacumbas romanas encontram-se imagens de Orfeu, tangendo sua lira no meio de animais simbolicamente cristãos: carneiros, ovelhas, cachorros e pombas. Noutros, encontram-se duas ovelhas: uma simbolizando Orfeu e outra, o Cristo. Nos mosaicos do mausoléu de Gala Placídia, em Ravena, é representado como Bom-Pastor. Uma antiga cena de crucificação chega mesmo a chamar Cristo de "Orfeu báquico". A semelhança dos simbolismos são flagrantes: o crime primordial dos Titãs e o pecado original de Adão e Eva; a consumação do corpo do deus cristão e do deus grego; Cristo como filho de Deus assim como Orfeu era filho de Apolo, são pontos comuns entre as duas doutrinas religiosas, numa visão simplista. Se pouco restou dos mistérios órficos, a figura de Orfeu tem cadeira cativa no inconsciente coletivo de nosso mundo.
Retirado de:
Há dúvidas se Orfeu teria sido um personagem histórico. Reza a lenda que ele teria nascido na Trácia e era filho de uma Musa (provavelmente Calíope, patrona da poesia épica e a mais importante das musas) e Eagros, rei da Trácia. Outra versão apresenta-o como filho do próprio Apolo. Orfeu é considerado como o maior músico da antigüidade, não só pela música, como pelo canto. Todos os poetas antigos celebraram sua lira e sua cítara, que teria sido inventada ou aperfeiçoada por ele (pois aumentou-lhe o número de cordas, de sete para nove, numa homenagem às Nove Musas). Seus acordes eram tão melodiosos que os homens e os animais quedavam paralisados para o escutar. Os animais ferozes deitavam-se a seus pés como cordeiros; as árvores vergavam para melhor escutá-lo; os homens mais coléricos sentiam-se penetrados de ternura e bondade. Educador da humanidade, conduziu os Trácios da selvageria para a civilização. Iniciado nos "mistérios", completou sua formação religiosa e filosófica viajando pelo mundo. Ao retornar do Egito, divulgou na Grécia a idéia da "expiação das faltas e dos crimes", bem como os cultos de Dioniso e os mistérios órficos, prometendo, desde logo, a imortalidade a quem neles se iniciasse.
Possui-se hoje uma visão razoável do orfismo através dos diversos escritos, principalmente os textos de Platão e Virgílio, que o integraram no seio de suas obras. O orfismo oscila entre o culto a Dioniso (ou Dionísio), que sempre desejou romper a camisa-de-força da religião tradicional da pólis grega, e Apolo, cuja seriedade corrigia os excessos e os desvairios dionisíacos. Este culto comandou a religião estatal com mão de ferro, freando qualquer inovação que significasse um rompimento com o "métron" (medida ideal), tão conhecidos na lição apolínea por excelência: Conhece-te a ti mesmo e nada em demasia. A inteligência, a ciência e a sabedoria são consideradas pelos seguidores de Apolo como modelos divinos. A serenidade apolínea tornou-se, para o homem grego, o emblema da perfeição. Esta aproximação que Orfeu faz dos dois deuses antagônicos tem um certo sentido: segundo Eliade, o espírito grego exprime por ela sua esperança de encontrar uma solução às crises desencadeadas pela ruína dos valores das religiões homéricas (cujos valores podemos perceber nas obras Ilíada, Odisséia, e nos hinos homéricos, todos atribuídos ao poeta grego Homero.
Mitologia
Orfeu é essencialmente um reformador. O orfismo quebra com a religião homérica, principalmente no tocante à sua teogonia. Salienta-se que a teogonia de Homero foi transmitida pelos rapsodos gregos. Sumariamente, a teogonia órfica afirma o seguinte: na origem estava Cronos (o Tempo) e dele saíram o Éter e o Caos, que geraram o Ovo Cósmico, um ovo de prata imenso (daí a proibição de se comerem ovos). Desse Ovo surgiu o deus andrógino Fanes, mais tarde chamado de Eros. Após seu nascimento, a parte superior do ovo tornou-se o céu e a parte inferior, a terra. Fanes criou a Lua e o Sol, os outros deuses e o mundo. Zeus, contudo, engole Fanes e toda a criação. Houve a produção de um mundo novo, tornando-se, a partir daí, o criador único. Um papiro, descoberto em 1962, revela uma teogonia ainda mais radical: um verso, atribuído a Orfeu, proclama que "Zeus é o começo, o meio e o fim de todas as coisas". A seguir, Zeus criou um numeroso panteão no qual é preciso salientar Dioniso-Zagreu, que terá papel fundamental no culto do orfismo.
A mitologia conta que Zagreu, o primeiro Dioniso, era filho de Zeus com Sêmele. Os Titãs, a mando de Hera, raptaram Zagreu, mataram-no e cozinharam-no num caldeirão. Em seguida, o devoraram-no. Zeus, possesso, fulminou os Titãs, transformando-os em cinzas. Dessas cinzas nasceram os homens, com sua dupla natureza: o mal advindo de sua natureza titânica, e o bem, representado pelo menino Dioniso-Zagreu, que os Titãs tinham devorado. A chispa do divino, que o homem carrega dentro de si, advém pois de Dioniso, deus da fertilidade e também da morte. Na religião dionisíaca inexiste, contudo, esperança escatológica, enquanto o orfismo é essencialmente soteriológico (prega a salvação humana).
Características
O orfismo rejeitava os ritos antigos, nos quais os iniciados despedaçavam animais ainda vivos, para consumo do sangue e da carne, pois os orfistas eram radicalmente vegetarianos.
De Apolo, herdou uma componente da catarsis (purificação, ou purgação), tão praticada no oráculo apolíneo de Delfos, mas era radicalmente contra a idéia de Apolo de que esta visava prioritariamente a purificar o homicídio. Os órficos eram ascéticos, que purificavam-se nesta e na outra vida, visando libertar-se do ciclo das existências. A religião apolínea era o bem viver; a órfica, o bem morrer.
Os órficos substituíram a "folia" dionisíaca pela catarsis apolínea. Através da prece e da oferenda, a purificação é um dos ritos principais das religiões antigas. Tudo que é impuro provoca a repulsão dos deuses e, por impuro, entende-se tanto a alma quanto o corpo. Convém notar que, por purificação, entende-se tanto a individual como a coletiva. Na antigüidade grega, quando se cometia um crime, o castigo recaía não só sobre o criminoso como sobre todo o seu clã. Assim, uma pretensa purificação de um crime tinha que ser não só individual como coletiva. Os cultos dionisíacos eram secretos e envoltos em mistério (ao contrário dos cultos apolíneos, que eram públicos). Por sinal, conhece-se muito pouco destes ritos secretos e destas iniciações órficas. Os órficos resolveram o problema da culpa de forma original na cultura grega: a culpa é sempre de responsabilidade individual e por ela se paga aqui; quem não conseguiu purgar-se nesta vida, pagará por suas faltas no além e nas outras reencarnações até a catarsis final.
A semelhança entre o orfismo e o pitagorismo, nos aspectos religiosos, é por demais sintomática: o dualismo corpo-alma, a crença na imortalidade da alma, a metempsicose, a punição no Hades (inferno), a glorificação final da psiqué nos Campos Elíseos, o vegetarianismo, o ascetismo e a importância das purificações. Por outro lado, o orfismo era menos elitista do que o pitagorismo, menos esotérico e não se imiscuia em política.
Reencarnação
É importante aqui salientar o caráter monoteísta do orfismo, que representa uma ruptura importante com os mitos olímpicos advindos dos rapsodos homéricos. O orfismo propugna por uma noção de um deus criador, soberano, simbolizando a vida universal. Contudo, o rompimento mais radical com o mito homérico é na parte escatológica, ou seja, na ciência dos fins últimos do homem, naquilo que deverá seguir à vida terrestre. A descida ao Hades simboliza a vida após a morte. A concepção órfica da imortalidade advém de um crime primordial: a alma está enterrada no corpo como se fosse um túmulo (soma-sema, que significa corpo-túmulo). Como conseqüência, a existência encarnada se assemelha mais a uma morte, e o falecimento constitui o começo da verdadeira vida. Esta verdadeira "vida" não é obtida automaticamente; a alma será julgada segundo as suas faltas e os seus méritos. Após um certo período, ela reencarna. A influência egípcia – julgamento de Osíris e reencarnação – é insofismável no orfismo. Nessa via crucis, de reencarnação em reencarnação, até mesmo em corpo de animais (metempisocose), a alma vai se purificando. Nesses intervalos reincarnacionistas a alma chega a demorar uns 1000 anos no castigo do inferno, onde sofre um ciclo de pesadas penas. Quando completamente purificada, sai desse ciclo de gerações para reinar entre os heróis. O destino, obviamente, não será o mesmo para os iniciados órficos e os profanos. O mortal comum profano deverá percorrer dez vezes o ciclo antes de escapar.
Um artefato importantíssimo no orfismo são as "lamelas órficas". São pequenas lâminas ou placas de ouro, descobertas na Itália meridional e na Ilha de Creta, e em túmulos órficos. São todas marcadas com o sinal secreto Y, até hoje um mistério. Delgadas e elegantes, enroladas sobre si mesmas, eram depositadas em pequenas placas hexagonais. Estas, presas a correntes de ouro, eram colocadas no pescoço dos iniciados, como talismãs, à maneira de passaporte para a eternidade.
Numa das lamelas encontradas, estão incrustados versos de aconselhamento à alma do morto para sua viagem em direção ao Hades. Em lá chegando, deve escolher entre um caminho da direita e um da esquerda. "À esquerda da morada do Hades, tu encontrarás o Lago da Memória (Lethes), e os guardiões estarão lá. Diga-lhes... eu sou o menino da Terra e do Céu estrelado, mas estou morrendo de sede. Dá-me rapidamente a água fresca que flue do Lago da Memória". Para a alma que deve retornar a terra para reencarnar-se, essa água do Lethes tem por função não esquecer sua existência terrestre, mas eclipsar a recordação do mundo pós-morte. O orfismo assim reverte a função da água do Esquecimento pela nova doutrina da transmigração. O esquecimento não simboliza mais a morte, mas o retorno à vida. A alma que teve a imprudência de beber na fonte do Lethes reencarna e será novamente projetada no ciclo do devir.
Para aquelas almas que não precisam mais se reencarnar, é aconselhado evitar a água do Lago da Memória e passar ao caminho da direita. E está escrito numa das lamelas: "Venho de uma comunidade de puros, ó puro soberano dos Infernos". Ao que Persófone replica: "Saúdo-te, toma o caminho da direita em direção aos prados sagrados e aos bosques de Perséfone".
A sede da alma, comum a tantas culturas, configura não apenas o refrigério, pelo longo caminhar da mesma em direção a outra vida, mas sobretudo, simboliza a ressurreição, no sentido da passagem definitiva para um mundo melhor. Se, para os gregos "os mortos são aqueles que perderam a memória", o esquecimento para os órficos não mais configura a morte, mas o retorno à vida.
Conclusão
Orfeu não morreu com a Grécia antiga. A sua figura continuou a ser reinterpretada pelos teólogos, tanto judeus quanto cristãos. Especialmente cristãos, se considerarmos que o cristianismo como o conhecemos floresceu na Grécia e em Roma. Nos afrescos das catacumbas romanas encontram-se imagens de Orfeu, tangendo sua lira no meio de animais simbolicamente cristãos: carneiros, ovelhas, cachorros e pombas. Noutros, encontram-se duas ovelhas: uma simbolizando Orfeu e outra, o Cristo. Nos mosaicos do mausoléu de Gala Placídia, em Ravena, é representado como Bom-Pastor. Uma antiga cena de crucificação chega mesmo a chamar Cristo de "Orfeu báquico". A semelhança dos simbolismos são flagrantes: o crime primordial dos Titãs e o pecado original de Adão e Eva; a consumação do corpo do deus cristão e do deus grego; Cristo como filho de Deus assim como Orfeu era filho de Apolo, são pontos comuns entre as duas doutrinas religiosas, numa visão simplista. Se pouco restou dos mistérios órficos, a figura de Orfeu tem cadeira cativa no inconsciente coletivo de nosso mundo.
Retirado de:
sexta-feira, 12 de março de 2010
A intolerância cristã através da História - Parte 2

Após vermos que os pobres mártires cristãos não passaram de agitadores sociais que desestabilizaram a ordem de liberdade de culto em Roma por atacarem as demais crenças politeístas o que fez com que o Imperador desse um trato neles, vamos ver como se deu o auge da intolerância cristã na História do Ocidente, o que não fez desaparecer por completo essa intolerância nos dias de hoje, mascarada por um denso preconceito em relação a crença alheia, principalmente após os "ataques" do 11/09, o que criou uma islamofobia no Ocidente enquanto que o fundamentalismo cristão se espalha assustadoramente semelhante aos tempos da Inquisição, entretanto sem os resquícios de violência e repressão que marcaram aquela época.
Após a destruição das grandes bibliotecas dos templos pagãos, a Igreja ironicamente salvou as últimas cópias dos textos nas suas bibliotecas, desse modo monopolizando o saber. Agora a Igreja era senhora do poder político, do poder religioso e do poder intelectual. A leitura foi absurdamente desencorajada, uma vez que até possuir um exemplar da Bíblia em casa era crime, e pior, pecado. A pena ia desde uma simples advertência até a excomunhão e pena de morte. A proibição da leitura justificava-se pelo princípio político de que um povo ignorante jamais se rebelaria contra seus governantes, princípio já visto anteriormente segundo a justificativa encontrada nas cartas de Paulo que rejeita qualquer subversão à ordem estabelecida por esta ter sido organizada pelo próprio Deus em sua incontestável vontade. Assim qualquer rebelião deveria ser suprimida imediatamente, seja de cunho religioso, político ou social, evitando assim o caos na ordem criada por Deus. Isso faria com que a Europa Medieval passasse séculos aos pés do estamento político e social, só mudando essa situação com a humanização do pensamento ocidental através do resgate das ideias filosóficas da Grécia e da Roma Antiga durante o Renascimento.
Com o Renascimento, há uma abertura absurda ao conhecimento que inunda a Europa. Antes, restringidas aos grandes mosteiros e às ordens monásticas, as obras clássicas da filosofia e da política tomaram conta da Europa, incentivando uma evolução de pensamento devido às crises que assolaram a Europa nos séculos anteriores. Temendo uma quebra da ordem social devido às novas ideias humanistas e não mais teológicas, a Igreja depositou todo o seu poder nas ordens religiososas que agora tinham a missão de proteger a Igreja contra as "heresias". Com a oficialização da Inquisição, uma ordem em especial se destacou nessa função de proteção da Igreja, a Ordem Dominicana. O nome de destaque que marcou a inquisição nessa época foi o monge dominicano Tomás de Torquemada. Nomeado como chefe inquisitor, Torquemada simplesmente implantou a Inquisição na Europa, especialmente na Espanha, sua terra natal, de modo intenso, evitando a todos os custos que a Europa cedesse às investidas Islâmicas e Heréticas das demais seitas que ainda existiam na época. Aliado às diversas publicações como o Malleus Maleficarum, e à cultura de superstição que varreu a Europa, uma onda de violência e intolerância fez com que a Inquisição se tornasse o maior tribunal penal da história condenando, torturando e matando milhões de pessoas nos anos em que atuou.
Aliado a isso, a intolerância aos judeus e muçulmanos cresceu de forma absurda, criando uma nova diáspora dos judeus através da Europa, ou forçando-os à conversão para não serem mortos. A perseguição aos muçulmanos foi mais lamentável, uma vez que embora convertidos ao Cristianismo, muitos árabes ainda mantinham seus costumes como as lavagens períodicas, a não consumação de carne de porco, enfim, medidas sanitárias que não vingavam na europa. Com isso, muitos foram acusados de serem falsos cristãos, mantendo suas crenças anteriores. Os que não foram condenados pela Inquisição, foram extraditados para suas terras de origem, o que infelizmente fez com que eles fossem mortos, uma vez que renegaram sua fé no Islã, o que era punível com pena de morte. Milhares de árabes deportados foram executados por terem se convertido ao Cristianismo, tanto pelos cristãos, tanto pelos próprios muçulmanos!
Com a Reforma Prostestante instaura-se um verdadeiro clima de Juízo Final. Crentes que o fim do mundo estaria próximo, vendo a fé Católica abalada pelas novas igrejas não-católicas, o Vaticano intensifica a Inquisição gerando uma verdadeira Contra-Reforma. Agora os novos alvos são os protestantes, que são perseguidos, torturados e mortos pela Igreja, que agora, vê na Inquisição uma questão política, afinal, os diversos reinos estão sendo divididos pelas novas igrejas como a Alemanha e a Inglaterra. Novas técnicas de tortura são criadas e muitas aperfeiçoadas de modo a intensificar a guerra contra a expansão do Protestantismo. Ao longo de séculos várias disputas entre os dois lados massacra milhares de pessoas em ambos os lados, visto que ao serem atacados pelos Católicos, os protestantes também criam sua inquisição, tão cruel quanto a Católica, valendo-se das mesmas ideias e métodos para espalhar sua fé. A questão ficou cada vez mais tensa a ponto de gerar verdadeiros massacres históricos como a Noite de São Bartolomeu, onde Católicos franceses invadiram um bairro protestante e mataram todos moradores da localidade, assim como a invasão de Roma pelo rei espanhol Carlos V, que sob um exército protestante saqueou Roma. Após conflitos entre a França e a Espanha, Carlos V chegou a Roma, invadindo o Vaticano num episódio digno de um filme hollywoodiano. Sabendo da prominente invasão, o Papa Clemente VII, sem exércitos de reinos próximos, contratou milhares de mercenários suíços para defender Roma. Ao chegar na cidade, o rei espanhol comandou um massacre histórico, fazendo as tropas recuarem até o Vaticano. Ao chegar na sede da Igreja, invadiu a Basílica de São Pedro, criando uma batalha dentro do templo entre seus soldados e os guardas suíços que conduziram o papa até o Castelo de Sant'Angelo onde ficou cercado por meses. Após esse evento, o Vaticano, sentindo-se ameaçado, tornou a Guarda Suíça o exército oficial da Santa Sé. Vendo-se fragilizada por esse episódio, a campanha da Inquisição tornou-se mais violenta, condenando de forma veemente o Protestantismo.
Agora, o clima de inimizade tornou-se clima de guerra. Os protestantes não eram mais hereges e sim servidores do demônio, e vice-versa. Com a intensificação dos conflitos a Igreja passa a pautar sua luta numa defesa estrita da fé Católica, proibindo livros com a publicação do Index Librorum Prohibitorum, a conversão em massa através da coação, como no caso dos índios na América, e a perseguição sumária a qualquer um que não seja Católico. E não ser Católico, inclui discordar ou não pensar de acordo com a doutrina da Igreja. Com isso, a Igreja passa a perseguir os cientístas da época que aos poucos iam desmentindo as ideias científicas defendidas pela Igreja a partir dos modelos medievais e clássicos. Com isso milhares de cientistas são perseguidos, torturados e mortos pela Igreja como Giordano Bruno, que num episódio bizarro, pediu a Mussolini que destruísse uma estátua erguida em homenagem ao cientista. Tendo sido o pedido negado via pressão popular, a Igreja canonizou o acusador e inquisidor de Giordano, o cardeal Roberto Bellarmino. Vários outros inquisitores e torturadores serão canonizados e até hoje a Igreja não se desculpou pelas execuções cometidas nessa época. É tanto que somente Galileu foi perdoado, enquanto que Giordano ainda continua condenado pela Igreja.
Na américa, a Ordem dos Jesuítas, vê-se acoada pelos interesses de Portugal na escravização dos índios. Uma das poucas ordens religiosas que não segue as ordens das Inquisições é perseguida pelo próprio Papa que autoriza Portugal enviar exércitos para acabar com as reduções e missões locais. Vários jesuítas são massacrados e os índios são tomados como escravos. A partir daí, a ordem é dividida entre membros resistentes à irracionalidade da Inquisição e aqueles que aderem à inquisição. Por sua filosofia de busca pelo conhecimento, a Ordem Jesuíta será condenada pelo Vaticano por ter se tornado "racional demais". Com a Ordem dividida, o Vaticano preza pela eliminação da ala racionalista criando uma ala mais conservadora, que também será perseguida pelos governantes iluministas como no caso do Brasil com o Marquês de Pombal. A ala conservadora dos Jesuítas será a responsável pela instauração das ideias totalitaristas na Europa, enquanto que a ala liberal mais tarde será uma das difusoras do Cristianismo Social e da Teologia da Libertação na América Latina juntamente com a Ordem Franciscana.
Mesmo com o advento do Iluminismo e do racionalismo, a perseguição e a intolerância religiosa continuariam a reinar na Europa e na América, como no histórico caso do jovem francês La Barre, que foi torturado, decapitado e queimado numa fogueira por não ter feito reverência durante uma procissão. O fato ocorreu depois de um crucifixo ter sido destruído. O bispo de Amiens incitou a fúria dos fieis e fez com que eles buscassem o culpado do acontecido. Nessa época a França ainda era um país muito católico, e o fato de La Barre não ter tirado o chapéu durante a procissão, o fez um suspeito. Após ter sua casa invadida e terem sido achados exemplares do Dicionário Filosófico de Voltaire e outros livros proibidos pelo Índex, foi o suficiente para que ele fosse preso e condenado à morte. Mesmo com as tentativas de libertação por parte do próprio Voltaire, a pena foi consumada. Com a Revolução Francesa, um monumento em homenagem à La Barre foi erguido, sendo a estátua mais tarde transferida propositalmente para a frente de uma igreja. Durante o Regime de Vichy, governo francês mascarado pelo Nazismo quando este dominou a França, promulgou uma lei onde todas as estátuas deveriam ser derretidas para o aproveitamento do metal na guerra. Curiosamente a maioria das estátuas derretidas foram justamente a de La Barre e de pensadores Iluministas da Revolução, entretanto foram poupadas estátuas de santos e de reis franceses.
Isso mostra claramente a interferência (ou relação) da Igreja para com os regimes totalitários, estes, defensores das tradições nacionais e da ordem original defendida, esta, pautada pela Igreja, que assim como esses regimes, defende a perpetuação do poder e da ordem, evitando revoluções e transformações sociais. Com isso, a Igreja mantém seu poder juntamente com o poder político instaurado. A história se repete como nos primeiros anos do Cristianismo onde o Império Romano, agora cristão, consolidava seu poder por meio da religião, com isso criando uma sociedade servil, estamentária e tradicionalista, onde os únicos beneficiados eram aqueles que governavam a sociedade. Com a chegada da era moderna, uma crise institucional varreria a Europa, pondo um fim no domínio e no monopólio da Igreja, tanto na política, tanto na ciência, tanto na religião.
Após a destruição das grandes bibliotecas dos templos pagãos, a Igreja ironicamente salvou as últimas cópias dos textos nas suas bibliotecas, desse modo monopolizando o saber. Agora a Igreja era senhora do poder político, do poder religioso e do poder intelectual. A leitura foi absurdamente desencorajada, uma vez que até possuir um exemplar da Bíblia em casa era crime, e pior, pecado. A pena ia desde uma simples advertência até a excomunhão e pena de morte. A proibição da leitura justificava-se pelo princípio político de que um povo ignorante jamais se rebelaria contra seus governantes, princípio já visto anteriormente segundo a justificativa encontrada nas cartas de Paulo que rejeita qualquer subversão à ordem estabelecida por esta ter sido organizada pelo próprio Deus em sua incontestável vontade. Assim qualquer rebelião deveria ser suprimida imediatamente, seja de cunho religioso, político ou social, evitando assim o caos na ordem criada por Deus. Isso faria com que a Europa Medieval passasse séculos aos pés do estamento político e social, só mudando essa situação com a humanização do pensamento ocidental através do resgate das ideias filosóficas da Grécia e da Roma Antiga durante o Renascimento.
Com o Renascimento, há uma abertura absurda ao conhecimento que inunda a Europa. Antes, restringidas aos grandes mosteiros e às ordens monásticas, as obras clássicas da filosofia e da política tomaram conta da Europa, incentivando uma evolução de pensamento devido às crises que assolaram a Europa nos séculos anteriores. Temendo uma quebra da ordem social devido às novas ideias humanistas e não mais teológicas, a Igreja depositou todo o seu poder nas ordens religiososas que agora tinham a missão de proteger a Igreja contra as "heresias". Com a oficialização da Inquisição, uma ordem em especial se destacou nessa função de proteção da Igreja, a Ordem Dominicana. O nome de destaque que marcou a inquisição nessa época foi o monge dominicano Tomás de Torquemada. Nomeado como chefe inquisitor, Torquemada simplesmente implantou a Inquisição na Europa, especialmente na Espanha, sua terra natal, de modo intenso, evitando a todos os custos que a Europa cedesse às investidas Islâmicas e Heréticas das demais seitas que ainda existiam na época. Aliado às diversas publicações como o Malleus Maleficarum, e à cultura de superstição que varreu a Europa, uma onda de violência e intolerância fez com que a Inquisição se tornasse o maior tribunal penal da história condenando, torturando e matando milhões de pessoas nos anos em que atuou.
Aliado a isso, a intolerância aos judeus e muçulmanos cresceu de forma absurda, criando uma nova diáspora dos judeus através da Europa, ou forçando-os à conversão para não serem mortos. A perseguição aos muçulmanos foi mais lamentável, uma vez que embora convertidos ao Cristianismo, muitos árabes ainda mantinham seus costumes como as lavagens períodicas, a não consumação de carne de porco, enfim, medidas sanitárias que não vingavam na europa. Com isso, muitos foram acusados de serem falsos cristãos, mantendo suas crenças anteriores. Os que não foram condenados pela Inquisição, foram extraditados para suas terras de origem, o que infelizmente fez com que eles fossem mortos, uma vez que renegaram sua fé no Islã, o que era punível com pena de morte. Milhares de árabes deportados foram executados por terem se convertido ao Cristianismo, tanto pelos cristãos, tanto pelos próprios muçulmanos!
Com a Reforma Prostestante instaura-se um verdadeiro clima de Juízo Final. Crentes que o fim do mundo estaria próximo, vendo a fé Católica abalada pelas novas igrejas não-católicas, o Vaticano intensifica a Inquisição gerando uma verdadeira Contra-Reforma. Agora os novos alvos são os protestantes, que são perseguidos, torturados e mortos pela Igreja, que agora, vê na Inquisição uma questão política, afinal, os diversos reinos estão sendo divididos pelas novas igrejas como a Alemanha e a Inglaterra. Novas técnicas de tortura são criadas e muitas aperfeiçoadas de modo a intensificar a guerra contra a expansão do Protestantismo. Ao longo de séculos várias disputas entre os dois lados massacra milhares de pessoas em ambos os lados, visto que ao serem atacados pelos Católicos, os protestantes também criam sua inquisição, tão cruel quanto a Católica, valendo-se das mesmas ideias e métodos para espalhar sua fé. A questão ficou cada vez mais tensa a ponto de gerar verdadeiros massacres históricos como a Noite de São Bartolomeu, onde Católicos franceses invadiram um bairro protestante e mataram todos moradores da localidade, assim como a invasão de Roma pelo rei espanhol Carlos V, que sob um exército protestante saqueou Roma. Após conflitos entre a França e a Espanha, Carlos V chegou a Roma, invadindo o Vaticano num episódio digno de um filme hollywoodiano. Sabendo da prominente invasão, o Papa Clemente VII, sem exércitos de reinos próximos, contratou milhares de mercenários suíços para defender Roma. Ao chegar na cidade, o rei espanhol comandou um massacre histórico, fazendo as tropas recuarem até o Vaticano. Ao chegar na sede da Igreja, invadiu a Basílica de São Pedro, criando uma batalha dentro do templo entre seus soldados e os guardas suíços que conduziram o papa até o Castelo de Sant'Angelo onde ficou cercado por meses. Após esse evento, o Vaticano, sentindo-se ameaçado, tornou a Guarda Suíça o exército oficial da Santa Sé. Vendo-se fragilizada por esse episódio, a campanha da Inquisição tornou-se mais violenta, condenando de forma veemente o Protestantismo.
Agora, o clima de inimizade tornou-se clima de guerra. Os protestantes não eram mais hereges e sim servidores do demônio, e vice-versa. Com a intensificação dos conflitos a Igreja passa a pautar sua luta numa defesa estrita da fé Católica, proibindo livros com a publicação do Index Librorum Prohibitorum, a conversão em massa através da coação, como no caso dos índios na América, e a perseguição sumária a qualquer um que não seja Católico. E não ser Católico, inclui discordar ou não pensar de acordo com a doutrina da Igreja. Com isso, a Igreja passa a perseguir os cientístas da época que aos poucos iam desmentindo as ideias científicas defendidas pela Igreja a partir dos modelos medievais e clássicos. Com isso milhares de cientistas são perseguidos, torturados e mortos pela Igreja como Giordano Bruno, que num episódio bizarro, pediu a Mussolini que destruísse uma estátua erguida em homenagem ao cientista. Tendo sido o pedido negado via pressão popular, a Igreja canonizou o acusador e inquisidor de Giordano, o cardeal Roberto Bellarmino. Vários outros inquisitores e torturadores serão canonizados e até hoje a Igreja não se desculpou pelas execuções cometidas nessa época. É tanto que somente Galileu foi perdoado, enquanto que Giordano ainda continua condenado pela Igreja.
Na américa, a Ordem dos Jesuítas, vê-se acoada pelos interesses de Portugal na escravização dos índios. Uma das poucas ordens religiosas que não segue as ordens das Inquisições é perseguida pelo próprio Papa que autoriza Portugal enviar exércitos para acabar com as reduções e missões locais. Vários jesuítas são massacrados e os índios são tomados como escravos. A partir daí, a ordem é dividida entre membros resistentes à irracionalidade da Inquisição e aqueles que aderem à inquisição. Por sua filosofia de busca pelo conhecimento, a Ordem Jesuíta será condenada pelo Vaticano por ter se tornado "racional demais". Com a Ordem dividida, o Vaticano preza pela eliminação da ala racionalista criando uma ala mais conservadora, que também será perseguida pelos governantes iluministas como no caso do Brasil com o Marquês de Pombal. A ala conservadora dos Jesuítas será a responsável pela instauração das ideias totalitaristas na Europa, enquanto que a ala liberal mais tarde será uma das difusoras do Cristianismo Social e da Teologia da Libertação na América Latina juntamente com a Ordem Franciscana.
Mesmo com o advento do Iluminismo e do racionalismo, a perseguição e a intolerância religiosa continuariam a reinar na Europa e na América, como no histórico caso do jovem francês La Barre, que foi torturado, decapitado e queimado numa fogueira por não ter feito reverência durante uma procissão. O fato ocorreu depois de um crucifixo ter sido destruído. O bispo de Amiens incitou a fúria dos fieis e fez com que eles buscassem o culpado do acontecido. Nessa época a França ainda era um país muito católico, e o fato de La Barre não ter tirado o chapéu durante a procissão, o fez um suspeito. Após ter sua casa invadida e terem sido achados exemplares do Dicionário Filosófico de Voltaire e outros livros proibidos pelo Índex, foi o suficiente para que ele fosse preso e condenado à morte. Mesmo com as tentativas de libertação por parte do próprio Voltaire, a pena foi consumada. Com a Revolução Francesa, um monumento em homenagem à La Barre foi erguido, sendo a estátua mais tarde transferida propositalmente para a frente de uma igreja. Durante o Regime de Vichy, governo francês mascarado pelo Nazismo quando este dominou a França, promulgou uma lei onde todas as estátuas deveriam ser derretidas para o aproveitamento do metal na guerra. Curiosamente a maioria das estátuas derretidas foram justamente a de La Barre e de pensadores Iluministas da Revolução, entretanto foram poupadas estátuas de santos e de reis franceses.
Isso mostra claramente a interferência (ou relação) da Igreja para com os regimes totalitários, estes, defensores das tradições nacionais e da ordem original defendida, esta, pautada pela Igreja, que assim como esses regimes, defende a perpetuação do poder e da ordem, evitando revoluções e transformações sociais. Com isso, a Igreja mantém seu poder juntamente com o poder político instaurado. A história se repete como nos primeiros anos do Cristianismo onde o Império Romano, agora cristão, consolidava seu poder por meio da religião, com isso criando uma sociedade servil, estamentária e tradicionalista, onde os únicos beneficiados eram aqueles que governavam a sociedade. Com a chegada da era moderna, uma crise institucional varreria a Europa, pondo um fim no domínio e no monopólio da Igreja, tanto na política, tanto na ciência, tanto na religião.
domingo, 7 de março de 2010
A intolerância cristã através da História - Parte 1

Quando se fala da intolerância religiosa cristã pensa-se muito na Idade Média e sua histórica Inquisição. Entretanto, por mais incrível que pareça, essa trajetória de conflitos sociais causados por querelas religiosas pode ser traçada desde os primeiros tempos do Cristianismo, mais precisamente o Cristianismo primitivo onde diferente dos relatos dos mártires perseguidos, suas reais razões se mostram desde o início pautadas em questões culturais e principalmente religiosas, onde o simples fato de existirem doutrinas antagônicas, gerou um verdadeiro caos social culminando nas mais diversas atrocidades da História do Ocidente.
Tudo inicia-se com Jesus, embora ele não tenha nada haver com isso, afinal, foi com os seus seguidores que o Cristianismo realmente começou, afinal Jesus era judeu, não cristão, muito menos ditou como deveriam ser interpretados seus ensinamentos, afinal ele ensinava para abrir as mentes das pessoas, não para criar uma crença padronizada. Mais precisamente, o Cristianismo teve início com Paulo de Tarso, um soldado romano convertido que após uma "visão" passou a seguir os ensinamentos Jesus auto-intitulando-se seu apóstolo. Mais do que isso, Paulo literalmente criou uma doutrina própria a partir das suas reflexões dos ensinamentos de Jesus, o que geraria um grave conflito dentro das igrejas cristãs. As igrejas que falo são no plural mesmo, uma vez que a Igreja Primitiva era composta de diversas comunidades cada qual com uma maneira independente de levar a fé, é tanto que havia um sério conflito entre as ideias do apóstolo Tiago que contrastava com as de Paulo. Com isso, Paulo levou a melhor, convencendo Pedro e os demais a levar a cabo a ideia de espalhar o cristianismo não só pela Palestina, mas principalmente pelo mundo greco-romano, de modo a mudar a face pagã daquelas culturas.
Pautado na ideia de "pregar o evangelho a toda criatura", Paulo e seus seguidores iniciaram uma verdadeira cruzada nas terras gregas e do Império Romano. Onde quer que passasse, ele denunciava o politeísmo dessas culturas, o que começou a gerar um impasse social, afinal, podemos imaginar Paulo como um explorador Espanhol ou Português metendo o nariz na cultura indígena denunciando suas crenças como falsas e etc, o que não me impressiona que gere um mal estar entre esses dois grupos. Se hoje em dia, um grupo religioso ataca outro do mesmo ramo como no famoso e polêmico caso do "chute na santa", imagine naquela época. A crise cultural gerou episódios de conflitos reais, onde os cristãos confrontavam os pagãos por suas crenças. E com isso, a estabilidade social ficava cada vez mais debilitada. Claro que isso não agradava em nada os governantes da época, afinal, do nada, um grupo religioso começou a incomodar a paz social e a cultura grego-romana. Na Roma Antiga existia a liberdade de culto, o que fazia da capital um pólo multi-religioso indo desde os cultos egípcios até os cultos romanos populares como o Mitraísmo. Não me impressiona que com tantos cultos politeístas, os cristãos não tenham feito uma investida evangelizadora na capital do Império, e com isso alimentando os conflitos sociais entre os monoteístas e politeístas. Por terem se intrometido na cultura alheia, o governo romano começou a perseguir os cristãos, numa tentativa de evitar uma crise social advinda desses conflitos. É aí onde entra a famosa perseguição aos cristãos, que foi muito mais do que um simples descontetamento do Imperador por ser criticado pelos cristãos. Logo a história dos mártires que "recusavam negar a fé" se traduz num grupo monoteísta fervoroso que gerava conflitos religiosos contra grupos politeístas dentro de uma sociedade de liberdade religiosa onde os diversos cultos conviviam em paz.
Entretanto, com o tempo o número de convertidos para o Cristianismo estava crescendo, e agora, o pequeno grupo que criava os conflitos estava se transformando num grande grupo que ameaçava até mesmo o governo local. Assim, temendo que com as perseguições, este grupo se revoltasse contra o Império, deu-se a liberdade religiosa aos cristãos, antes, proibidos de praticar sua fé devido aos conflitos iniciados por eles. Aliado a isso, o Império sofria diversas investidas de povos estrangeiros, o que tirava a confiabilidade no governo por parte do povo. Com isso, os imperadores da épocas, viam nessa abertura religiosa um escape aos conflitos internos, o que mais tarde faria com que esse poder do Cristianismo na sociedade se tornasse ironicamente uma forma de fortalecer o Império, uma vez que as camadas populares estavam trocando a fé no Imperador pela fé nas mensagens de esperança de Jesus. Numa jogada de mestre, aos poucos, vai se moldando o Cristianismo oficial, unindo-se elementos dos vários cultos existentes, assim, a mensagem que conquistou a sociedade era unida às tradições e crenças das diversas religiões existentes como o Mitraísmo e elementos da cultura egípcia, de modo a criar um Messias Ecumênico, que agradasse a gregos, troianos, romanos e cristãos, com isso, acalmamando os conflitos existentes e gerando a tão sonhada paz num Império tão conturbado. O cerne que consolidou todos esses pontos para culminar mais tarde no Império Bizantino chamava-se Constantino. Apoiado no poder influente da tradição e das escrituras cristãs, Constantino deu um verdadeiro golpe político ao consolidar não só o que seria a base da sociedade a partir daquele momento, como também um resgate das tradições e poder do Império Romano. Consolidado sob o discurso de Jesus diante de Pilatos ao afimar que o poder que este detinha vinha de Deus, Paulo faz um breve comentário sobre a autoridade confiada por Deus ao homem em suas cartas. Aquele que contestasse a autoridade dada por Deus, estaria contestando a vontade do próprio Deus. Com isso, apoiado nas cartas de Paulo, ao afirmar que Deus o tinha escolhido para guiar o Império Romano, Constantino simplesmente consolidou o poder político de volta nas mãos do Imperador, que governaria o Império pela vontade onipotente de Deus, agora expressa pelos ensinamentos do Cristianismo. Com isso, não só Constantino firmaria as bases do Império Bizantino, mas também consolidaria toda a centralização da autoridade política na Europa Medieval, com isso evitando conflitos sociais que criariam uma instabilidade social, coisa que só aconteceria séculos mais tarde com as ideias iluministas.
Com essa jogada, instaura-se um verdadeiro jogo de dominação onde por todos os lados busca-se consolidar o Império por meio do Cristianismo, e com isso consolidando também o poder do Imperador que agora é chefe de Estado e Chefe da Religião, curiosamente um título que o Imperador possuia antes (o Summus Pontifex), o que desmente a tradição que já existia uma linhagem de Papas desde Pedro, é tanto que como já foi visto, haviam várias lideranças na Igreja. Com isso, os antes perseguidos cristãos, tornam-se os perseguidores. Os templos pagãos agora são convertidos em templos cristãos. Os criminosos que tinham incitado a desordem social e foram condenados à morte agora viraram mártires, e toda a cultura pagã foi aos poucos sendo varrida do Império para que o mesmo fosse reconstruído a partir do Cristianismo. A liberdade religiosa é substituída pela religião de Estado, e os crentes pagãos vão se refugiar nas terras originais dos cultos como o Antigo Egito. Como se não bastasse, os mais tarde proclamados santos, os bispos Teófilo e Atanásio, iniciam uma campanha anti-paganismo nas terras egípcias, onde vários templos são destruídos, juntamente com o seu acervo bibliotecário, o que mais tarde geraria a monopolização do saber pela Igreja, gerando também a crise cultural na Idade Média, fruto dessa tática de "cultura arrasada". A perda de conhecimento gerada por essa campanha foi incalculável, a ponto da ciência produzida na época só ser realcançada plenamente durante a Revolução Industrial! A própria Biblioteca de Alexandria foi incendiada em uma dessas investidas da Igreja Patrística, uma vez que nessa mesma época as perseguições contra os pagãos atingiu seu ápice no Egito, o que firmou de vez as bases do que seria mais tarde a Igreja Copta.
Enquanto isso, no Império Bizantino, são lançadas as bases oficiais da Teologia da Igreja. Até o Concílio de Nicéia, várias correntes filosóficas existiam dentro do Cristianismo, mesmo que conflitantes, como os Arianos e Apolinarianos. Isso gerava o velho conflito de crenças, o que ia contra a ideia de solidez da instituição. Com o Concílio, foi determinado de uma vez por todas o que seria "verdade", desde a natureza de Jesus até os rituais, e tudo aquilo que não condizesse com essa "verdade" seria heresia, uma "outra escolha", afinal, só haveria uma verdade, uma única escolha, aquilo que foi concluído como certo. Com isso iniciam-se as primeiras perseguições dentro do próprio Cristianismo contra as diversas seitas que existiam e com isso iniciando-se o derramamento de sangue dentro do próprio Cristianismo. Por falar em seita, deve-se frizar o caráter sectário do próprio Cristianismo Primitivo como já foi citado com as diversas igrejas e seus líderes que vez ou outra entravam em atrito. Voltando um pouco à questão de Paulo, é interessante lembrarmos que a partir dos Apóstolos houve uma cisão dentre os Paulinicianos que seguiam Paulo e os Judeus Cristãos, ligados a Tiago que defendia que a tradição cristã deveria seguir aos moldes judeus, ou seja, só ser repassada aos judeus segundo as tradições judaicas. Com isso, as divisões do Cristianismo começariam desde aí culminando as diversas seitas do tempo do Império Bizantino até as milhares que surgiram depois da Reforma Protestante. Por causa disso o Cristianismo perderia de vez as características de uma crença judaica, sobrando somente os cânones pra contar história, e é claro, o fato, muitas vezes esquecido, de Jesus ser judeu. Embora o Concílio de Nicéia oficialize vários pontos da doutrina, ao longo dos séculos várias questões assolaram a Igreja como o episódio dos Ícones onde por manterem o monopólio da venda e prática dessa fé, monges bizantinos entraram em conflito com o Império devido ao poder e influência que eles estavam ganhando na sociedade. Isso gerou um conflito social que culminou violenta guerra civil dentro do Império.
Tudo inicia-se com Jesus, embora ele não tenha nada haver com isso, afinal, foi com os seus seguidores que o Cristianismo realmente começou, afinal Jesus era judeu, não cristão, muito menos ditou como deveriam ser interpretados seus ensinamentos, afinal ele ensinava para abrir as mentes das pessoas, não para criar uma crença padronizada. Mais precisamente, o Cristianismo teve início com Paulo de Tarso, um soldado romano convertido que após uma "visão" passou a seguir os ensinamentos Jesus auto-intitulando-se seu apóstolo. Mais do que isso, Paulo literalmente criou uma doutrina própria a partir das suas reflexões dos ensinamentos de Jesus, o que geraria um grave conflito dentro das igrejas cristãs. As igrejas que falo são no plural mesmo, uma vez que a Igreja Primitiva era composta de diversas comunidades cada qual com uma maneira independente de levar a fé, é tanto que havia um sério conflito entre as ideias do apóstolo Tiago que contrastava com as de Paulo. Com isso, Paulo levou a melhor, convencendo Pedro e os demais a levar a cabo a ideia de espalhar o cristianismo não só pela Palestina, mas principalmente pelo mundo greco-romano, de modo a mudar a face pagã daquelas culturas.
Pautado na ideia de "pregar o evangelho a toda criatura", Paulo e seus seguidores iniciaram uma verdadeira cruzada nas terras gregas e do Império Romano. Onde quer que passasse, ele denunciava o politeísmo dessas culturas, o que começou a gerar um impasse social, afinal, podemos imaginar Paulo como um explorador Espanhol ou Português metendo o nariz na cultura indígena denunciando suas crenças como falsas e etc, o que não me impressiona que gere um mal estar entre esses dois grupos. Se hoje em dia, um grupo religioso ataca outro do mesmo ramo como no famoso e polêmico caso do "chute na santa", imagine naquela época. A crise cultural gerou episódios de conflitos reais, onde os cristãos confrontavam os pagãos por suas crenças. E com isso, a estabilidade social ficava cada vez mais debilitada. Claro que isso não agradava em nada os governantes da época, afinal, do nada, um grupo religioso começou a incomodar a paz social e a cultura grego-romana. Na Roma Antiga existia a liberdade de culto, o que fazia da capital um pólo multi-religioso indo desde os cultos egípcios até os cultos romanos populares como o Mitraísmo. Não me impressiona que com tantos cultos politeístas, os cristãos não tenham feito uma investida evangelizadora na capital do Império, e com isso alimentando os conflitos sociais entre os monoteístas e politeístas. Por terem se intrometido na cultura alheia, o governo romano começou a perseguir os cristãos, numa tentativa de evitar uma crise social advinda desses conflitos. É aí onde entra a famosa perseguição aos cristãos, que foi muito mais do que um simples descontetamento do Imperador por ser criticado pelos cristãos. Logo a história dos mártires que "recusavam negar a fé" se traduz num grupo monoteísta fervoroso que gerava conflitos religiosos contra grupos politeístas dentro de uma sociedade de liberdade religiosa onde os diversos cultos conviviam em paz.
Entretanto, com o tempo o número de convertidos para o Cristianismo estava crescendo, e agora, o pequeno grupo que criava os conflitos estava se transformando num grande grupo que ameaçava até mesmo o governo local. Assim, temendo que com as perseguições, este grupo se revoltasse contra o Império, deu-se a liberdade religiosa aos cristãos, antes, proibidos de praticar sua fé devido aos conflitos iniciados por eles. Aliado a isso, o Império sofria diversas investidas de povos estrangeiros, o que tirava a confiabilidade no governo por parte do povo. Com isso, os imperadores da épocas, viam nessa abertura religiosa um escape aos conflitos internos, o que mais tarde faria com que esse poder do Cristianismo na sociedade se tornasse ironicamente uma forma de fortalecer o Império, uma vez que as camadas populares estavam trocando a fé no Imperador pela fé nas mensagens de esperança de Jesus. Numa jogada de mestre, aos poucos, vai se moldando o Cristianismo oficial, unindo-se elementos dos vários cultos existentes, assim, a mensagem que conquistou a sociedade era unida às tradições e crenças das diversas religiões existentes como o Mitraísmo e elementos da cultura egípcia, de modo a criar um Messias Ecumênico, que agradasse a gregos, troianos, romanos e cristãos, com isso, acalmamando os conflitos existentes e gerando a tão sonhada paz num Império tão conturbado. O cerne que consolidou todos esses pontos para culminar mais tarde no Império Bizantino chamava-se Constantino. Apoiado no poder influente da tradição e das escrituras cristãs, Constantino deu um verdadeiro golpe político ao consolidar não só o que seria a base da sociedade a partir daquele momento, como também um resgate das tradições e poder do Império Romano. Consolidado sob o discurso de Jesus diante de Pilatos ao afimar que o poder que este detinha vinha de Deus, Paulo faz um breve comentário sobre a autoridade confiada por Deus ao homem em suas cartas. Aquele que contestasse a autoridade dada por Deus, estaria contestando a vontade do próprio Deus. Com isso, apoiado nas cartas de Paulo, ao afirmar que Deus o tinha escolhido para guiar o Império Romano, Constantino simplesmente consolidou o poder político de volta nas mãos do Imperador, que governaria o Império pela vontade onipotente de Deus, agora expressa pelos ensinamentos do Cristianismo. Com isso, não só Constantino firmaria as bases do Império Bizantino, mas também consolidaria toda a centralização da autoridade política na Europa Medieval, com isso evitando conflitos sociais que criariam uma instabilidade social, coisa que só aconteceria séculos mais tarde com as ideias iluministas.
Com essa jogada, instaura-se um verdadeiro jogo de dominação onde por todos os lados busca-se consolidar o Império por meio do Cristianismo, e com isso consolidando também o poder do Imperador que agora é chefe de Estado e Chefe da Religião, curiosamente um título que o Imperador possuia antes (o Summus Pontifex), o que desmente a tradição que já existia uma linhagem de Papas desde Pedro, é tanto que como já foi visto, haviam várias lideranças na Igreja. Com isso, os antes perseguidos cristãos, tornam-se os perseguidores. Os templos pagãos agora são convertidos em templos cristãos. Os criminosos que tinham incitado a desordem social e foram condenados à morte agora viraram mártires, e toda a cultura pagã foi aos poucos sendo varrida do Império para que o mesmo fosse reconstruído a partir do Cristianismo. A liberdade religiosa é substituída pela religião de Estado, e os crentes pagãos vão se refugiar nas terras originais dos cultos como o Antigo Egito. Como se não bastasse, os mais tarde proclamados santos, os bispos Teófilo e Atanásio, iniciam uma campanha anti-paganismo nas terras egípcias, onde vários templos são destruídos, juntamente com o seu acervo bibliotecário, o que mais tarde geraria a monopolização do saber pela Igreja, gerando também a crise cultural na Idade Média, fruto dessa tática de "cultura arrasada". A perda de conhecimento gerada por essa campanha foi incalculável, a ponto da ciência produzida na época só ser realcançada plenamente durante a Revolução Industrial! A própria Biblioteca de Alexandria foi incendiada em uma dessas investidas da Igreja Patrística, uma vez que nessa mesma época as perseguições contra os pagãos atingiu seu ápice no Egito, o que firmou de vez as bases do que seria mais tarde a Igreja Copta.
Enquanto isso, no Império Bizantino, são lançadas as bases oficiais da Teologia da Igreja. Até o Concílio de Nicéia, várias correntes filosóficas existiam dentro do Cristianismo, mesmo que conflitantes, como os Arianos e Apolinarianos. Isso gerava o velho conflito de crenças, o que ia contra a ideia de solidez da instituição. Com o Concílio, foi determinado de uma vez por todas o que seria "verdade", desde a natureza de Jesus até os rituais, e tudo aquilo que não condizesse com essa "verdade" seria heresia, uma "outra escolha", afinal, só haveria uma verdade, uma única escolha, aquilo que foi concluído como certo. Com isso iniciam-se as primeiras perseguições dentro do próprio Cristianismo contra as diversas seitas que existiam e com isso iniciando-se o derramamento de sangue dentro do próprio Cristianismo. Por falar em seita, deve-se frizar o caráter sectário do próprio Cristianismo Primitivo como já foi citado com as diversas igrejas e seus líderes que vez ou outra entravam em atrito. Voltando um pouco à questão de Paulo, é interessante lembrarmos que a partir dos Apóstolos houve uma cisão dentre os Paulinicianos que seguiam Paulo e os Judeus Cristãos, ligados a Tiago que defendia que a tradição cristã deveria seguir aos moldes judeus, ou seja, só ser repassada aos judeus segundo as tradições judaicas. Com isso, as divisões do Cristianismo começariam desde aí culminando as diversas seitas do tempo do Império Bizantino até as milhares que surgiram depois da Reforma Protestante. Por causa disso o Cristianismo perderia de vez as características de uma crença judaica, sobrando somente os cânones pra contar história, e é claro, o fato, muitas vezes esquecido, de Jesus ser judeu. Embora o Concílio de Nicéia oficialize vários pontos da doutrina, ao longo dos séculos várias questões assolaram a Igreja como o episódio dos Ícones onde por manterem o monopólio da venda e prática dessa fé, monges bizantinos entraram em conflito com o Império devido ao poder e influência que eles estavam ganhando na sociedade. Isso gerou um conflito social que culminou violenta guerra civil dentro do Império.
Passados alguns séculos , no episódio mais tosco da História Cristã, ocorre o Cisma do Oriente devido à uma "importante" questão teológica. A questão gira em torno do patriarca de Constantinopla que defendia que deveria-se utilizar o pão com levedura para a Eucaristia, enquanto que para o Papa, o pão deveria ser sem levedura, tudo devido à tradição judaica dos pães ázimos. Com isso, ambos os líderes se excomungam por "heresia" e dessa questão surge oficialmente a Igreja Católica Ortodoxa e a Igreja Católica Romana. Dessa questão mais tarde iria culminar a guerra dos Balcãs dentre Ortodoxos e Católicos. Agora com a monopolização da crença e do saber no Ocidente, juntamente com o poder político, consolidava-se o sistema Feudal. A troca de favores entre os líderes políticos e religiosos, fazia com que esse sistema fosse mantido e a sociedade ficasse estamentada durante séculos. O sistema parecia perfeito aos olhos daqueles que dele usufruiam de modo que qualquer ameaça ao mesmo deveria ser tolhida imediatamente. Com isso evitou-se a proliferação das diversas seitas pós consolidação da Igreja, criando-se mecanismos de repressão que mais tarde se aperfeiçoariam na histórica Inquisição. Com a chegada do Islã, agora o Cristianismo via-se fortemente abalado pela nova cultura em ascensão. Adicionando-se à isso a crise econômica gerada pela superpopulação da Europa, a Igreja viu nas cruzadas uma maneira de solucionar esses dois problemas, uma vez que com Jerusalém em suas mãos, garantiria não só a estabilidade econômica, devido ao lugar ser um pólo entre o Oriente e o Ocidente, mas também acabaria com a expansão do Islã. Repetindo as investidas contra uma sociedade já estabelecida, a Igreja simplesmente destruiu as bases de uma sociedade estabilizada, uma vez que Jerusalém, embora sob o domínio muçulmano tinha liberdade de culto tanto para judeus quanto para cristãos, o que com a invasão cristã, iniciou-se uma série de conflitos culturais que culminaram até os dias de hoje.
Sem contar os milhares de mortos em todos os lados, as Cruzadas tornaram-se um fator determinante na criação da cultura dos "soldados de Deus". Se essa ideia já tinha se iniciado com as campanhas de Teófilo e cia contra os pagãos no Egito, agora, as forças militares do Cristianismo tomavam proporções cada vez maiores a ponto de gerar conflitos entre os próprios reinos como no caso das guerras entre a França e a Inglaterra, onde cada um dos reinos estaria lutando pela "vontade de Deus". Vontade essa que mais tarde consolidou uma onda de fanatismo e intolerância que regiria a Europa durante a Idade Média e a época da Inquisição. Cada vez mais as cruzadas contra os hereges iam tomando proporções mais violentas a ponto das perseguições chegarem ao ponto de exterminar grupos inteiros como os Cátaros, uma das várias seitas violentamente combatidas pela Igreja, que para garantir a estabilidade do sistema Medieval não media esforços para manter a sociedade na linha. Com a criação oficial da Inquisição, um verdadeiro sistema de perseguição é instaurado na Igreja, que com a liberação da tortura como meio de investigação, cria um dos mais crueis sistemas penais da história, mais brutal do que os sistemas nazistas e comunistas. Sutilmente valendo-se de uma prerrogativa administrativa, onde após aplicar todo o processo investigativo, mediante as técnicas de tortura, claro, a Igreja passava a bola da Execução da Pena ao poder administrador da época, o que mais tarde permitiria com que ela afirmasse que nunca matou ninguém. Com isso cada vez mais a troca de favores entre a Igreja e a Política fazia com que ambos fossem respeitados diante da sociedade, afinal, cada vez mais o poder que eles detinham coagiam a população, receosa de qualquer mudança social devido às razões já apresentadas no início do texto.
Com a Reforma Protestante e o Renascimento, houve um aperfeiçoamento das diversas técnicas de tortura, publicações como o Maleus Maleficarum, o Index Librorum Prohibitorum, a intensificação dos Autos de Fé, como uma maneira de impedir a quebra desse monopólio de poder exercido pela cultura cristã no Ocidente. Nem se precisa comentar os milhões de mortos e torturados durante o regime da Inquisição. Mas o que mais chama a atenção é que ela resiste até os dias de hoje onde o antigo Tribunal do Santo Ofício mudou o nome para a atual Congregação para a Doutrina da Fé, curiosamente presidida há pouco tempo pelo então Cardeal Joseph Ratzinger, hoje, Papa Bento XVI. Toda essa onda de conservadorismo que hoje assola a Igreja era incalculável naqueles dias, o que nos faz ter convicção de que todas essas acusações dos crimes cometidos não só pela Igreja, mas também pelos Protestantes (afinal eles também tiveram sua Inquisição, tão violenta quanto a Católica, afinal era outro sistema social que queria se firmar no mundo), e no fim das contas por toda a História do Cristianismo, realmente aconteceram, pois se hoje em dia com toda evolução mental do homem ainda declaram guerra invocando o nome de Deus, quem dirá naqueles dias. Por sinal, o mundo ocidental só é o que é hoje graças às ideias humanistas e iluministas que surgiram na Europa Moderna, e se tem uma organização que pode ser acusada de ter trazido essas ideias à tona (afinal, muita gente ainda lamenta o fim dessas épocas onde a Igreja era a bola da vez), é a Maçonaria, que até hoje é condenada pela Igreja (afinal acabou com sua "era de ouro" com o secularismo e as revoluções liberais). Não é a toa que a Igreja era e é contra ideias revolucionárias e libertadoras, afinal, há toda uma quebra do sistema vingente, e como consequência, um descumprimento de toda aquela filosofia pregada por Constantino que era defendida por Paulo, que se fundamentou nas palavras de Jesus, que não tinha nada haver com isso, afinal era um judeu. Por sinal, a Igreja teve todo um envolvimento na perseguição dos judeus desde os seus primeiros anos de existência até os dias de hoje, mas isso é assunto para um próximo texto.





















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